Mudança para a sobrevivência da escola.

(in: Público, 24/7/11)

É com grande distanciamento que devemos observar as características dos sistemas educativos de referência porque os estudos internacionais oferecem algumas possibilidades interessantes, desde que reconheçamos as suas limitações. Qualquer sublimação de um sistema educativo paradisíaco esbarra com as limitações próprias dos estudos que o caracterizam, que levam ao desprezo dos pormenores importantes.

Guilherme Valente diz-se conhecedor do sistema educativo finlandês e aponta-o como exemplo a seguir. Não é nova a tentação de seguir sistemas de referência e o exemplo mais recente foi a abjecta ADD imposta pela ministra de má memória, Maria de Lurdes Rodrigues. O editor da Gradiva considera que é impossível reproduzir, entre nós, o cenário social de fundo que suscita a qualidade da escola finlandesa (o respeito pela educação e o prestígio da escola; os pais com instrução elevada, acompanham com exigência o trabalho escolar dos filhos). Em bom rigor, este ambiente de fundo está criado. Vejamos: quanto à instrução dos pais, o programa das Novas Oportunidades está aí a produzir certificações em série e encontra-se em fase de velocidade de cruzeiro; quanto ao prestígio da escola e respeito pela educação, sabendo quão prestigiados são os professores nos estudos de opinião, como é possível desconfiar da escola(?); Quanto ao acompanhamento do trabalho escolar dos filhos, um país cujo desemprego não pára de aumentar acaba por permitir, de forma paradoxal, acompanhar os filhos nos trabalhos escolares. O caldo está criado, caro Guilherme Valente. O mais difícil será o que diz ser praticável: Mudar a cultura de escola para um qualquer arquétipo de rigor e exigência. A meu ver, não é possível mudar a cultura de escola sem a compreender. E como a cultura de escola é plural, é preciso viver a escola situada para empreender qualquer mudança. Não sei se a mudança deve ir no sentido da exigência. Estou mais inclinado que a mudança deve ir no sentido de garantir a sobrevivência da escola. Porque este modelo de escola que o senhor ministro da educação advoga (escola unidimensional) é um modelo que conduz à destruição da escola, entendida como instituição formadora de sujeitos (integrais), como “templo” de transformação do homem.

E aqui estamos de acordo: Sem essa mudança de cultura (para a sobrevivência da escola), servirá de muito pouco aumentar o número de aulas de matemática e de português.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: