A ciência e a política jogam-se em tabuleiros diferentes.

O Ramiro, talvez desafiado por mim quando o questionei sobre o grau de certeza das suas propostas e sobre as evidências na investigação que o levam a propor mais horas para Português e Matemática, escreveu este post em que nos dá conta de um estudo realizado por James Peyser sobre 18 escolas integradas no New Schools Venture Fund com o objectivo de identificar as variáveis associadas ao bom desempenho dos alunos.

O Ramiro é um apoiante indefectível de Nuno Crato. Não vem o mal ao mundo por isso e nem isso seria relevante não fosse o caso de ser um investigador com experiência, obra publicada e créditos firmados. Nem sempre as decisões políticas são sustentadas pela investigação. Por um lado porque não há investigação capaz de abarcar a complexidade da realidade sobre a qual a decisão interfere, e por outro lado, o jogo político desenvolve-se noutro tabuleiro com regras próprias que ignoram, quase sempre, as regras da investigação. Ao pretender legitimar a decisão política com os resultados da investigação científica, o Ramiro não deve ignorar a sua condição e, ao contrário de um qualquer “zeco” cuja missão principal é ensinar e não investigar, tem de ser rigoroso. Não pode, não deve, “usar” a investigação à la carte por muito que aprecie a decisão política. Não foi por acaso que o instiguei a apresentar resultados da investigação para que se separasse o trigo do joio, para que não se confundam as questões de fé com as questões de ciência.

Ora, o Ramiro sabe muito bem que os resultados escolares não se explicam apenas com uma, duas, três, quatro ou até meia dúzia de variáveis, embora há investigadores que se concentram especialmente em algumas delas. Dir-me-á que não fez mais do que apresentar os resultados de um estudo que atestam o que ele pensa sobre determinado assunto. É verdade. Mas é um mau serviço prestado à ciência revelar apenas uma parte daquilo que se conhece omitindo o seu contraditório.

Alejandro Ferrer (1), investigador espanhol e catedrático de Teoria e História na Universidade Nacional de Educação à Distância de Madrid, sintetiza no quadro seguinte dois tipos de variáveis que nos podem ajudar a compreender os resultados da educação:

clip_image002

O autor chama a atenção para o facto de existirem relações múltiplas e cruzadas entre as variáveis e mesmo quando possa haver interesse em estudar um delas em particular não se pode pretender explicar os resultados alcançáveis por meio de uma variável apenas. E diz mais: “não há dúvida que os estudos internacionais oferecem algumas possibilidades interessantes, desde que reconheçamos as suas limitações. […] Estes tipos de estudos permitem a comparação da situação de determinado sistema educativo com a de outros que possam servir-lhe de referência, permitindo-lhe identificar os seus pontos forte e fracos, bem como avaliar o progresso realizado ao longo do tempo. Mas, em contrapartida, as suas conclusões surgem limitadas pela perspectiva macroscópica adoptada, que leva ao desprezo dos pormenores importantes, pela visão pouco contextualizada com que abordam os sistemas educativos, e pela estardadização imposta pelos seus métodos e técnicas de análise.”

Sabemos quanto Nuno Crato despreza a investigação realizada na Educação. O que não deixa de ser paradoxal para quem carrega o peso da reputação de investigador de excelência. Que Nuno Crato tome decisões políticas firmadas na sua fé e nas crenças que desenvolveu enquanto fazedor de opinião e conferencista, ainda se tolera. O que me custa mesmo a entender é a eventual legitimação pela via da ciência de políticas que devem ser apenas sustentadas pela via ideológica do back do basic.

A investigação empírica e os estudos internacionais nesta área têm uma tradição de cerca de cinquenta anos. Uma das linhas de investigação que pretendeu avaliar o efeito do tipo de variáveis sobre o rendimento académico é conhecida como estudo da eficácia escolar. O holandês Jaap Scheerens é um dos principais autores desta linha de trabalho e apresenta um conjunto de conclusões pouco animadoras após realizar diversas análises empíricas a partir de investigações próprias e doutros autores. Chegou à conclusão de que muitas das variáveis sobre cujo efeito existe um consenso bastante generalizado não dispunham de uma suficiente base empírica, com se verifica na tabela seguinte:

clip_image004

Não se deve tresler que se deve ter menos apreço sobre estas variáveis ou que o seu efeito é irrelevante. O problema está no facto de não ser fácil quantificá-las. E se esta dificuldade já se nota em estudos de pequena escala, ainda é maior nos estudos internacionais que adoptam uma perspectiva muito vasta.

Ora, olhando novamente para o problema do aumento do tempo de aprendizagem da Matemática e do Português. Que Nuno Crato goste de Português e de Matemática por qualquer tipo de preconceito, ainda se percebe. Também se percebe que o reforço do tempo de ensino e de aprendizagem induzirá melhores resultados, como mostra a investigação. Que deseja generalizar os exames nacionais ao maior número de disciplinas escolares, já lhe conhecemos a vontade – uma overdose de exames, portanto. Mas, estou para saber como vai descalçar a bota se se verificarem resultados negativos a um conjunto alargado de disciplinas. Vai esticar a carga horária dessas disciplinas? Ou dirá que não são importantes para o sucesso académico dos alunos?

_____________

(1) in: Azevedo, Joaquim (org.). Avaliação dos resultados escolares, Edições ASA, 2003.

Anúncios

4 thoughts on “A ciência e a política jogam-se em tabuleiros diferentes.

  1. IC 16/07/2011 às 17:27 Reply

    Gostei muito deste teu post. Discordo de um “pormenor”: “Que Nuno Crato tome decisões políticas firmadas na sua fé e nas crenças que desenvolveu enquanto fazedor de opinião e conferencista, ainda se tolera.” Não, não se devia tolerar e Nuno Crato (ou quem o escolheu) deveria ser confrontado com isso. Nuno Crato é um investigador lá na sua área e tem o direito de não gostar de investigar na área da Educação, mas não devia ter o direito de assumir a pasta de ministro da educação sem ser um conhecedor das investigações nessa área. E, sob pena de sujeitar a Educação, as escolas e os jovens estudantes a brincadeiras “experimentais”, deveria ser interrogado na AR sobre os fundamentos científicos das medidas tomadas e que venha a tomar.

  2. […] da versão do Miguel, até porque, como se vem discutindo, há […]

  3. Rui Ferreira 17/07/2011 às 15:41 Reply

    Excelente post.
    Obrigado pela partilha.

  4. manuelcabecam 17/07/2011 às 18:44 Reply

    perante o teu comentário no meu canto, retiro qualquer divergência, mas o título, o teu, remete para uma aparente separação que, por acaso, nem está presente no teu texto;

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: