Não confundamos estrada da Beira com beira da estrada.

O Ramiro parece incomodado com a falta de adesão da blogosfera docente às propostas eleitorais do PSD. Já rotulou os professores de socialistas, de esquerda, e agora considera que só têm comportamentos esquizofrénicos porque, heresia, dizem mal dos dois únicos partidos capazes de nos livrarem do partido e do primeiro-ministro que lhes fizeram a vida negra nos últimos seis anos.

Em primeiro lugar, os partidos políticos que nos conduziram à bancarrota estão bem identificados e basta percorrer o histórico da governação do país para concluir que o seu PSD (com o apêndice CDS) não está isento de culpas. A lógica do voto útil, a polarização do eleitorado nos dois partidos do centrão, conduziu-nos à pré-bancarrota. Esperar resultados diferentes apostando nos mesmos protagonistas é um equívoco que importa desmistificar.

Em segundo lugar, não sei qual o estudo de opinião que sustentará o quadro identitário dos professores portugueses. É um erro crasso considerar que as opiniões soterradas nas caixas de comentários dos blogues mais frequentados dos professores constituem uma amostra significativa do pensar dos professores das escolas situadas. É uma generalização abusiva e o Ramiro não precisa de evocar a sua condição de investigador para o reconhecer. Nem os blogues podem constituir uma corrente de opinião dentro da classe, nem o juízo que vamos formulando nestes fóruns de opinião podem ser extrapolados para um sentir de classe. Mas avancemos no intróito para chegarmos ao que importa.

O Ramiro parece apreciar as lideranças unipessoais. Por isso diz, demagogicamente, que os professores “opõem-se a qualquer medida que dê verdadeira autonomia às escolas que passe pelo reforço das competências do diretor.” Descentralizar competências para a escola não significa centralizar as competências no director. Não encontro qualquer incongruência entre o desejo do reforço da autonomia das escolas com o desejo de ver essa autonomia ser conduzida por um órgão colegial.

Diz também que “os professores não querem uma avaliação de desempenho burocrática, consumidora de tempo, subjetiva e faz-de-conta mas opõe-se a uma avaliação a sério e com componente externa.” Ora, será por rotularmos a avaliação de séria que ela vai ser capaz de avaliar o que se propõe avaliar: o desempenho docente!? Não é na sala de aula que esse desempenho se materializa? Não devia ser esse o quadro de referência para o desempenho docente? É o avaliador externo que credibiliza a avaliação? Será um exame de conhecimentos, ou a assistência a uma, duas, três aulas por ano, por um avaliador externo, por mais consagrado que ele seja, que dá credibilidade à avaliação? Se isso é uma avaliação séria, então eu defendo uma avaliação a brincar, e até lhe podem chamar de avaliação formativa, se isso servir para purgar consciências!

Quanto à questão da avaliação dos alunos, o Ramiro considera que “os professores queixam-se de que há alunos a passarem de ano sem saber nada e que a escola pública está ameaçada pelo facilitismo mas reagem negativamente à proposta de criação de exames nacionais à saída de todos os ciclos de ensino.” Precisamos de exames nacionais para impedir que alunos passem de ano sem saber nada? Por que não se afastam os empecilhos normativos que permitem que alunos passem de ano sem saber nada? Por que não se afasta “a burocracia imposta por um modelo de prestação de contas que não confia nos professores e que lhes nega liberdade e autonomia na concepção e utilização dos meios, métodos e procedimentos”?

O Ramiro é um blogger sério. Espero que a sua militância partidária não lhe obscureça a habitual lucidez.

8 thoughts on “Não confundamos estrada da Beira com beira da estrada.

  1. Miguel
    Gostei do teu comentário. Sem insultos, com argumentos. Muito bem. Só um reparo: não tenho militância partidária. Nem sequer sou simpatizante do PSD ou do CDS. Talvez votante.
    Abraço

    Gostar

  2. Olá Miguel,
    Quer-me parecer que, de súbito, te tornaste “centrista” nisto tudo. Acho curiosa a forma como analisas o “sentir” da classe. Onde estará?
    Não está, concordo, nas caixas de comentários dos blogues (mais ou menos frequentados).
    Mas onde estará?
    Esteve à mesa dos acordos com o ME?

    Às vezes as coisas têm contornos engraçados.

    Subitamente, o “radicalismo de esquerda” é outro.
    😉

    Gostar

    1. Viva Paulo,
      Podes ir directamente ao assunto e questionar se os sindicatos representam o “sentir” da classe. Se nem a pluralidade sindical traduz essa diversidade…. onde está esse sentir da classe? Pois…

      Gostar

      1. Mas então não há apenas uma frente sindical legítima?
        Os outros não são apenas… qualquer coisa de que se diz mal quando não aceitam fazer parte das Plataformas?

        E, Miguel, uma coisa são as pessoas que se sentam às mesas e não sabem o que é viver na escola, outra quem por lá anda.
        Sabes isso tão bem quanto eu.

        Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s