O burro sou eu?

clip_image002As sondagens de opinião sobre as eleições não penalizam o partido do governo que nos conduziu à pré-bancarrota. António Barreto, no jornal I, diz mesmo que “Sócrates precisa de ser severamente castigado”. Ainda não li a entrevista do sociólogo, mas não será difícil de adivinhar as razões pelas quais o conhecido cientista social sentencia o desempenho do líder do governo. As incongruências e os desacertos de Sócrates são de tal ordem que deve haver mais do que um quadro de referência para decidir estas coisas da governação. E há, efectivamente!

Não há escolha que obedeça apenas a critérios de racionalidade. Damásio explicou muito bem o processamento da decisão quando ligou os sentimentos à razão. Por isso estranho que os partidos da oposição ainda não tenham percebido que não basta ter razão para captar e fidelizar eleitores, é preciso agir sobre as emoções e os sentimentos dos eleitores. Sócrates e a sua máquina de imagem há muito que o perceberam e não perderão uma eleição enquanto os partidos políticos da oposição se comportarem como aprendizes de feiticeiro. Quando digo que o cancro da democracia está na partidarite, uma mutação da clubite dos futebóis, quero dizer que a fidelização partidária é irracional e cega porque a única heresia que é permitida aos partidários é a abstenção. A excepção a esta regra é a transferência de partido (que a ocorrer desemboca num processo análogo de submissão).

Sendo natural que todos os partidos políticos procurem aumentar a sua legião de fiéis numa lógica de conservação do poder ou de aquisição do poder, é paradoxal porque se todos os eleitores fossem partidários não existiria alternância de poder e questionar-se-ia o valor da democracia.

Este é o primeiro equívoco que importa frisar. O segundo equívoco está relacionado com a ideia de que o Povo são os outros e que o Povo é estúpido. Os analistas e os opinadores nunca, ou raramente, se classificam como Povo. O observador faz, nestas circunstâncias, uma espécie de meta análise sobre a sua condição, como se observasse num ponto exterior de si próprio para evitar a autoflagelação. Quando diz, não importa se o faz explicitamente, que o povo merece ser castigado, veste a pele do burguês. O povo é uma cambada de iletrados ou instruídos pelas Novas Oportunidades; o Povo é feito de uma massa diferente da sua, de uma massa pobre obviamente, que dispensa os ingredientes da racionalidade; porque ele não se considera, também, Povo.

Abro e fecho aqui um parêntesis para dar dois exemplos factuais que negam esta tese.

Há alguns anos atrás fazia parte de um grupo de “ilustres letrados” de uma pequena comunidade que às 5ªfeiras se juntava para um jogo de futebol cujo prolongamento, num restaurante da cidade, permitia tertúlias animadas. Para quem anda distraído devo lembrar que só as situações de stress elevado, como aquelas que o JOGO DESPORTIVO promove, dissecam a personalidade do sujeito. A falência do carácter ou a sua nobreza eram ali reveladas, semana a semana, jogo após jogo.

Diria ao jeito de provocação que estamos precisados de jogar todos os dias, estamos necessitados de oportunidades para separar o trigo do joio, porque há caras que não dizem com as caretas, como ontem relembrou Jerónimo de Sousa a Paulo Portas no primeiro debate eleitoral.

Recupero, dispensando-me dos desenvolvimentos porque são bem conhecidos, o episódio dos “Objectivos Individuais” que muitos professores se comprometeram a não entregar, para refutar a ideia de que o povo é estúpido e de que os estúpidos são os ignorantes e iletrados.

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