Uniformizar, reprimir, castrar…

Uma das consequências nefastas da avaliatite (uma tipo de obsessão pela avaliação) é a uniformização de processos e métodos de ensino, formas e meios de aprendizagem, instrumentos e contextos de avaliação. A avaliação sumativa, a avaliação que visa a distribuição de indivíduos numa ardilosa escala de mérito, tomou conta da Escola. A avaliação formativa, a avaliação que atende às diferenças, embora continue colada à oratória do educativamente correcto, desapareceu (?) das preocupações reais dos professores porque não serve os objectivos desta Escola cada vez mais mercantilizada.

Paradoxalmente, ao mesmo que se faz um apelo à uniformização de rotinas de ensino e de materiais de planificação para “facilitar” o controlo dos desempenhos, a ideia meritocrática que emerge da ADD carece de evidências de inovação e de originalidade.

É por estas e por outras que nenhum professor deve ceder a qualquer tentativa de terraplanagem da sua singularidade profissional.

Anúncios

5 thoughts on “Uniformizar, reprimir, castrar…

  1. IC 17/03/2011 às 03:45 Reply

    Miguel, ando completamente desactualizada pois já passou demasiado tempo desde que estou fora do terreno. O que é que faz com que a avaliação formativa tenha saído das preocupações dos professores? Os exames? E quem é que faz “um apelo à uniformização de rotinas de ensino e de materiais de planificação para “facilitar” o controlo dos desempenhos”? O ME? Os directores? Os professores-avaliadores? Os Conselhos dos departamentos? Desculpa esta chata, mas estou a perguntar porque não percebi mesmo. Estou muito isolada de contacto com os actuais professores, quase todos os meus amigos e amigas estão tb reformados.

  2. Miguel Pinto 17/03/2011 às 22:43 Reply

    Olá Isabel.

    Os processos de controlo do trabalho docente no âmbito da ADD têm gerado um conjunto de rotinas para “simplificar” a tarefa dos avaliadores numa busca falaciosa de “objectividade”. Há sempre quem considere que tudo, mesmo tudo, tem de ser uniformizado porque só assim se consegue perceber quem é capaz de se evidenciar entre os pares. No que se refere ao controlo das aprendizagens dos alunos, o clímax da uniformização é atingido na realização de testes iguais, realizados à mesma hora e nas mesmas condições, a todos os alunos do mesmo ano de escolaridade. A avaliação sumativa interna funciona como uma espécie de avaliação externa à escola.
    A avaliação formativa, no ensino secundário, tem uma expressão mínima nos critérios de avaliação específicos. Creio que a minha leitura não é excessiva, IC 🙂

    • IC 18/03/2011 às 02:00 Reply

      Obrigada, Miguel. Referindo-me ao último parágrafo da tua resposta, um testemunho sobre uma só escola pode não querer dizer nada. De qualquer modo, as minhas filhas andaram na mesma Secundária em que está o meu neto no 12º ano. As avaliações (notas) eram dadas unicamente pela média dos testes, e assim continuou a ser na generalidade do Secundário. Agora, acho uma diferença positiva enorme (aqui é que só posso referir a escola do meu neto): há uma avaliação que não se confina aos testes, não sei se há propriamente avaliação formativa mas há atenção e conhecimento sobre cada aluno, enfim… há uma atitude positivamente diferente da parte dos professores – o que dantes, quase só acontecia no Básico. E julgo poder afirmar que estas diferenças positivas têm poucos anos de existência. Isto foi só para dar uma nota de optimismo quanto ao Secundário 🙂 (No Básico, ao contrário, é que receio ter havido retrocesso face à enorme dedicação que aí havia)

  3. Daniel 20/03/2011 às 07:30 Reply

    Olá aos dois. 😉

    Eu tenho turmas do Secundário sujeitas a exame. Há cada vez mais, como escreveu o Miguel, o hábito de fazer testes iguais, induzidos pela lógica dos testes intermédios (feitos pelo GAVE e aplicados em todas as escolas do país à mesma hora) e pela necessidade da escola ficar bem retratada nos rankings. Confesso que não discordo, um teste feito em conjunto é bem menos trabalhoso, e por regra, melhor elaborado, há também mais cuidado nos critérios de correcção e de classificação.

    Resultado: aulas direccionadas para a preparação para exame, com resolução intensiva de exercícios, sínteses, resumos…

    Sendo eu de Geografia, gosto de fazer saídas de campo com os alunos (conhecer uma área industrial, o espaço rural, uma cidade/zona com determinado tipo de traçado urbano, centros de produção energética… ), que nos últimos anos têm sido raras. Uso o Google Maps… Uma das vantagens dos QI.

  4. Miguel Pinto 20/03/2011 às 10:58 Reply

    É isso mesmo, Daniel. O “Resultado: aulas direccionadas para a preparação para exame, com resolução intensiva de exercícios, sínteses, resumos…” acaba por deixar transparecer a dificuldade de cuidar da avaliação formativa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: