Disputa pelo pedaço de tempo.

O fim da Área de Projecto e do Estudo Acompanhado, previsto na proposta OE, vai deixar em risco pelo menos 5 mil professores, estima a FENPROF. Não sendo uma boa notícia para os professores contratados por razões óbvias, a extinção das áreas curriculares não disciplinares pode ser uma boa notícia para a escola. Desde logo se for acompanhada por uma diminuição do tempo de permanência dos alunos na escola contrariando a ideia peregrina de que a escola deve ser a tempo inteiro, relegando a família para uma espécie de baldio ao dispor do empregador. Pode ser uma boa notícia se o emagrecimento do currículo formal decorrer de uma política escolar centrada na cultura, ao invés de estar subordinada ao económico. Pode ser uma boa notícia se não decorrer de uma lógica reformadora burocrática, secundarizando e instrumentalizando o acto educativo.

A notícia de que chegou o fim das áreas não disciplinares parece ter desencadeado uma corrida ao pedaço de tempo: A Matemática, o Português, a História, a EVT, enfim, não faltam candidatos em bicos de pés acenando com benefícios pretensamente intrínsecos a cada disciplina. É evidente que a Educação Física também concorre nesta competição porque não lhe faltam motivos e argumentos sólidos para reforçar a sua importância no espaço escolar.

A meu ver, não deve prevalecer a lógica do feudo de uma qualquer corporação relativamente às restantes. É uma discussão inócua porque há que reflectir sobre a lógica política mais adequada à natureza da educação. E essa lógica dever ser a de longo prazo que tenha em linha de conta as carências culturais e educativas da população. Carências essas que não se remedeiam com o tipo de formação acelerada que é promovida pelos CNO´s socratinos.

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3 thoughts on “Disputa pelo pedaço de tempo.

  1. IC 27/10/2010 às 03:00 Reply

    Uma boa notícia, apesar de se dever a motivos economicistas. Tanto mais que o EA se manterá para alunos com maiores dificuldades. Mas deixa-me dizer que um tempo para Área de Projecto (com este ou outro nome) não teria sido inútil se os professores tivessem tido capacidade e percebessem de “Trabalho de Projecto”, proporcionando com isso real desenvolvimento dos alunos e numa perpectiva transdisciplinar. Também o EA (até podia ser alternado com AP – uma semana uma área, outra semana a outra) poderia ter sido importante se os professores soubessem trabalhar com os alunos estratégias de estudo e estratégias metacognitivas. Enfim… quando a componente científica da formação inicial dos profesores foi escandalosamente reduzida, não seria de esperar que fossem formados também para o que eu disse. Então, retirem-se as ditas áreas, já que, infelizmente, não se fez delas nada de útil.

  2. Miguel Pinto 27/10/2010 às 23:21 Reply

    Há que repensar a formação de professores mas, pergunto: será que ainda vale a pena? Por cada professor que entra para o quadro saem 32 do sistema. Penso que não será a nova geração a suscitar a mudança no sistema mesmo que as universidades estivessem para aí viradas, IC. O problema da balcanização disciplinar pode e deve ser resolvida pela formação contínua… não por uma formação contínua qualquer baseada na caça ao crédito, mas por uma formação contínua exclusivamente formativa e centrada nos projectos de escola. Enfim, isto levar-nos-ia a outra conversa 🙂

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