A crítica sindical – discurso e substância.

Partindo do princípio de que se deve manter a actual matriz organizacional do sistema escolar, há uma necessidade efectiva de colocar mais professores nas escolas apesar da tendencial diminuição do número de alunos. Porquê?

Porque o número de alunos por turma, em geral, é excessivo – Menos alunos por turma implica um aumento das turmas e de professores (quem labora no terreno sabe que há uma melhoria substancial das condições de trabalho com turma mais pequenas, entre16 a 20 alunos);

Porque o tempo de trabalho individual é insuficiente – O alargamento do conteúdo funcional do professor, a nova avaliação de desempenho e a necessidade de criar evidências… “desvia” o professor para matérias de cariz administrativo inócuas.

Porque o crédito global de horas para ser utilizado nas actividades dos clubes e projectos relevantes para a escola é escasso.

Ao defender a urgência de integrar mais professores no sistema escolar não estou a afirmar que é possível ocupar todos os professores disponíveis, por enquanto (prevejo uma alteração deste cenário a manter-se a campanha hostil sobre a função docente levada a cabo por arautos neoliberais instalados nos partidos políticos do arco de governação e a consequente redução de candidatos a professor).

Mesmo que o sistema de colocação de professores funcionasse correctamente, o que não é o caso, mesmo que o sistema de vagas fosse mais previsível, o que seria possível se as mudanças não ocorressem abrupta e tardiamente, o desemprego docente não acabava. É uma "verdade de La Palisse" que nem os sindicatos, nem os professores já contratados, ou por contratar, enfim, ninguém crê na integração de todos os professores disponíveis. A estabilidade do emprego é uma ambição legítima daqueles que, ano após ano, procuram um lugar no quadro. A negociação colectiva parece ser a forma mais segura para atingir essa mesma estabilidade. Há, porventura, quem não deseje a estabilidade e prefira a “sã” concorrência pelo emprego. Aí faz todo o sentido que se defenda a negociação individual dos contratos de trabalho, com a correspondente alteração do vínculo jurídico-funcional. No entanto, para a maioria, a contratação colectiva legitima o papel e a representatividade das organizações sindicais.

Esta não é, julgo eu, a discussão na blogosfera que decorre da divulgação das listas das necessidades transitórias. E a discussão até fazia todo o sentido, principalmente, se fosse desencadeada por aqueles que refutam, de forma mais ou menos velada, a legitimidade da representação sindical.

A questão central não é reservar o direito à crítica aos sindicalizados. Seria o mesmo que reservar a crítica sobre a acção de um partido político aos seus militantes. Um absurdo, digo eu. A questão é outra. Não é o direito à crítica que aqui se discute mas as razões de fundo dessa crítica, por mais acertado que seja o seu discurso. E as razões de fundo ajudam-nos a perceber o sentido das críticas e o modo como elas nos conduzem, ou não, ao fim desejado.

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3 thoughts on “A crítica sindical – discurso e substância.

  1. ramiro marques 31/08/2010 às 17:31 Reply

    Concordo com a forma como colocas o problema.

  2. C. Oliveira 31/08/2010 às 19:10 Reply

    Também eu concordo com esta visão do problema. E lamento que o debate na blogosfera se tenha virado para a crítica sistemática a tudo o que se refere a Sindicatos. E mais triste ainda fico, quando alguns, manifestamente inteligentes e bem informados, insinuam ou permitem que outros o façam, que Fenprof é sinónimo de Partido Comunista ou que os dirigentes sindicais só dizem ou pensam o que um hipotético Comité Central permite ou manda que se diga ou se pense

  3. IC 03/09/2010 às 02:24 Reply

    Gostei desta tua postagem. Quanto às discussões e às críticas aos sindicatos que decorrem na blogosfera, confesso que ando há muito desactualizada e sem paciência para me actualizar.
    Falas na necessidade de reduzir o número de alunos por turma. Posso ser injusta porque reduzi muitíssimo o leque de blogues que visito, mas a verdade é que fiz essa grande redução por estar farta de ler de tudo excepto o que interessa ao bem dos alunos. Tão poucos falam directa ou indirectamente das aulas…
    Retomei o meu blogue para o seu verdadeiro tema inicial: alunos, aprendizagem, métodos, etc. E vai ser para o duro, embora não faça doer porque pouquíssimos me lêem e o que estou com “ganas” de escrever não será lido por aqueles que precisariam, especialmente alguns não “bloguistas”

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