Um modelo de ensino plural para combater o insucesso escolar.

Respondendo a um pedido de várias famílias, algumas das quais se julgam independentes, e até correndo o risco de ser “desautorizado” pela Fenprof 😉 , atrevo-me a criticar um texto do Paulo Guinote que li hoje no Sol. Não sei de quem é a responsabilidade do título mas ainda pensei que o insucesso escolar sofresse uma pega de caras ao invés de sofrer uma pega de cernelha, contornando o problema com medidas superficiais em sistema caduco (1). Esta farpa é de somenos importância face à relevância da reflexão que, apesar de ser prometida, não foi cumprida no referido artigo de opinião.

E por falar em quebra de promessas, veremos se é possível dizer o que me apetece dizer em meia dúzia de parágrafos.

O que é a retenção?

A retenção é uma estratégia de remediação do insucesso escolar. Sempre que um aluno não demonstra proficiência no domínio de um conjunto de matérias de ensino convencionadas para um determinado ano de escolaridade, fica retido, chumba, fica a marcar passo. É o ME que determina o que é susceptível de ser dominado pelo alunos (acabo por evitar com esta explicação simplista as terminologias dos objectivos, das competências, das metas de aprendizagem, e de outros quejandos) prescrevendo programas nacionais, que depois são desconstruídos nas escolas em cada grupo disciplinar, e através dos normativos reguladores dos critérios a ter em conta para a retenção de um aluno. São os professores, nos conselhos de turma, que ratificam, ou não, os juízos parcelares de cada professor (observando recomendações do conselho pedagógico) e decidem pela retenção se entenderem que ela é útil para o aluno. Há, nesta fase do processo, um carácter discricionário, subjectivo e situado.

Se acompanharmos o processo de retenção de um aluno, que é determinado a montante do conselho de turma pela acção do ME e das suas equipas de trabalho, e a jusante pelo investimento pessoal de cada um dos alunos, pelo caldo de cultura de onde emerge, pela competência de ensino dos seus professores, etc., etc., verificamos que modificando variáveis exógenas é possível manipular os resultados do insucesso escolar transformados em mais ou menos retenções. É óbvio que o aluno é um sujeito activo neste processo e tem uma palavra decisiva a dizer, devendo ser sempre responsabilizado no seu percurso escolar.

Um esboço de proposta

Como é evidente, o actual modelo de ensino, unilateral, é curto para satisfazer as necessidades múltiplas da população escolar.

Em traços muito largos proponho:

  • Um modelo plural de ensino para atender às necessidades também elas plurais da população escolar;
  • Um ensino generalista até ao 6º ano de escolaridade, com retenções no final de cada ciclo de dois anos a decidir pelo conselho de turma (pluridocência);
  • Do 7º ano até ao 12º devem coexistir dois sistemas, permeáveis, com níveis de exigência distintos;
  • Um sistema orientado para o prosseguimento de estudos superiores, exclusivo, piramidal; um sistema orientado para os alunos com baixas (ou sem) expectativas, de prosseguimento de estudos, inclusivo, com oferta diversificada de áreas disciplinares (com ou sem conteúdo profissionalizante);
  • A permeabilidade, ou a transição entre sistemas, é possível desde que haja consequências.

Esta proposta busca um modelo plural cuja configuração evitará a previsível terraplanagem dos programas escolares que decorrem do alargamento da escolaridade obrigatória.

__________________

Adenda: (1) Depois do esclarecimento no Umbigo, a pega de cernelha acaba por se justificar.

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6 thoughts on “Um modelo de ensino plural para combater o insucesso escolar.

  1. Paulo Guinote 06/08/2010 às 20:00 Reply

    Não percebi qual é a crítica ao texto em causa, tirando o facto de me parecer que preferias que ele não existisse.

    Quanto às tuas propostas, parecem-me interessantes, só não percebendo ase não concretizaste umas partes pela mesma limitação dos 2800 caracteres (com espaços) com que eu tive de lidar.

    Por exemplo, a parte “permeável”… é do tipo escolher o que interessa e dá mais?

    • Miguel Pinto 06/08/2010 às 20:51 Reply

      Parece-me infundado o teu complexo de perseguição, Paulo. Mas, adiante…
      A permeabilidade entre sistemas deve existir por uma questão de equidade, com “consequências”.

  2. Paulo Guinote 06/08/2010 às 20:01 Reply

    Reli mesmo agora e percebi que o sistema “inclusivo” é aquele que resulta da exclusão do outro…
    Engenhoso…

  3. Paulo Guinote 06/08/2010 às 20:08 Reply

    http://educar.wordpress.com/2010/08/06/perguntasrespostas-3/

    Já postado há umas horas e escrito há dois dias…

    • Miguel Pinto 06/08/2010 às 20:55 Reply

      Não gosto de desperdiçar caracteres. Se o tivesse visto não me daria ao trabalho de corrigir o texto, não achas?
      Não andas demasiado susceptível para a época? 8)

  4. Paulo Guinote 07/08/2010 às 10:56 Reply

    Não achas que não percebeste o comentário que fiz?
    Susceptível, eu?
    Isto sou eu a ser meiguinho…

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