PIB, Educação e PISA, reduzidos numa folha de Excel

Retorno_Express2_25_7_10 No caderno de economia do Expresso, nas páginas centrais, o jornalista João Silvestre desafia-nos a olhar para a “coisa” educativa através da lente do “economês”. Os professores do ISEG, António Afonso, João César das Neves e, claro, Nuno Crato, são as estrelas da companhia. Pelo meio ainda é citado Miguel St. Aubyn, um investigador do papel do capital humano na economia portuguesa. Qual é a tese? A tese do costume: sabendo que um olhar sobre a realidade educativa a partir dos números, da quantidade de educação, de escolaridade básica ou da média de anos de escolaridade da população, é uma visão redutora que pode originar erros de análise; importa, por isso, colocar a tónica na qualidade em vez da quantidade. O que, segundo Nuno Crato, só através das comparações internacionais, TIMSS e PISA, é possível saber onde fica o norte do eduquês (isto sou eu a deduzir das palavras, e do pensamento escrito, do excelso especialista).

Sem qualquer preocupação jornalística pelo contraditório, João Silvestre apoia-se nas opiniões das referidas sumidades para afirmar que “Portugal gasta o mesmo que outros países em educação mas tem piores resultados.” Que resultados? Pergunta um incauto, como eu. Resultados na literacia matemática e acessoriamente nas literacias de leitura e científica. É nesta parte do texto que emerge a referência a um estudo científico (um artigo publicado no Banco Central Europeu… creio que é a universidade mais creditada na investigação educativa), assinado por Miguel St. Aubyn e António Afonso em 2005, onde os autores concluíam que, com os recursos utilizados, seria possível produzir mais 16% no ensino secundário. E para não pensarem que se trata de números atirados ao acaso só para impressionar, há um relatório da OCDE (Education at a Glance, de 2009) que atesta o seguinte: o Estado português gastou 5.3% do PIB em educação, em linha com a média dos países da OCDE, mas teve um retorno menor quando medido pelos conhecimentos. E é neste plano da eficiente utilização dos recursos que há mais problemas, dirão os pretensos relatores do documento.

Retorno_Express1_25_7_10Atente-se à precisão destes números e a complexidade das relações causais* o que contrasta com a criticada visão redutora de olhar apenas para o número de anos de escolaridade para se inferir a rendibilidade do ensino português.

Na ausência de um quadro de referência que abarque o conhecimento significativo que seria desejável um jovem conhecer, permitam-me a redundância, não encontro razões substantivas para aceitar que umas bojardas pretensamente científicas reduzam a complexidade dos problemas educativos a uma folha de Excel.

_________________________

* Um dos factores que explicam a existência de alguma ineficiência na utilização dos recursos, por exemplo, no ensino secundário, tem a ver com a própria formação dos pais dos alunos (…) refere António Afonso.

Se a condicionante-chave é a formação dos pais do aluno, o problema dos resultados encontra-se fora da escola. Para o bem e para o mal, não martirizem as escolas e os professores por algo que os transcendem.

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2 thoughts on “PIB, Educação e PISA, reduzidos numa folha de Excel

  1. Paulo G. Trilho Prudêncio 27/07/2010 às 01:26 Reply

    Viva Miguel.

    Meti aqui um comentário e não o vejo.

    Linkei este post no correntes em http://correntes.blogs.sapo.pt/751770.html

    Abraço.

  2. […] Crato é um fervoroso defensor dos testes PISA. Como destaquei aqui, Nuno Crato considera que só através das comparações internacionais, TIMSS e PISA, é possível […]

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