A quadratura do círculo – um comentário a um texto do Pedro Barroso.

Pensava não regressar ao assunto mas impõe-se um comentário a um longo texto de um colega de grupo, Pedro Barroso, mais conhecido pela sua faceta artística e menos pela sua formação académica. Agradeço ao Sérgio a referência e a possibilidade que me dá para aclarar o que penso sobre o tema.

Duas notas prévias:

1. Ninguém deve ficar imune à crítica. O problema não está, portanto, na crítica mas na substância dessa crítica.

2. Todos devem prestar contas, não direi a todos, mas quando se trata de um “serviço público” há que submeter ao escrutínio da opinião pública a qualidade desse serviço.

Sobre o texto de Pedro Barroso, encontro duas linhas argumentativas:

· Uma, focada nos traços da personalidade do Carlos Queiroz que determinam negativamente, no entender do Pedro Barroso, o estilo de liderança;

· Outra, dirigida às opções equívocas quer da estratégia de jogo quer das opções táctico-técnicas;

O texto não consegue esconder uma certa animosidade pessoal de Pedro Barroso com Carlos Queiroz, com quem algum dia privou, parecendo ressabiado com uma vida que não escolheu porque optou, e bem no seu entender, por se deixar guiar por valores mais elevados.

Reconhece que CQ possui características que são importantes num perfil de um líder (“o estudo, a calma, a cultura e ponderação que inegavelmente possui(s)”), mas não reconhece em Queiroz “ambição, o golpe de génio, a raiva, o combate, a capacidade motivacional, o cuspo, o grito, o abraço sincero e a agressividade atacante que inegavelmente sofreia(s)”.

Porém, é factual, estas críticas caem por terra depois de analisado o jogo de qualificação com a Dinamarca, cujo volume e qualidade do jogo ofensivo foram unanimemente reconhecidos. Mais recentemente, o jogo com a Coreia do Norte mereceu os mais rasgados elogios pela sagacidade do treinador, pela ambição dos jogadores, pela eficácia na finalização. Aí não faltou ao Carlos Queiroz ambição, o golpe de génio, a raiva, o combate, a capacidade motivacional, o cuspo, o grito, o abraço sincero e a agressividade atacante. O problema é que no primeiro jogo o que sobrou em eficiência escasseou em eficácia ofensiva. Não se trata, a meu ver, de não ter capacidade para agir. O problema não é a ausência de capacidade de liderança ou de competência para o cargo, como Pedro Barroso defende. O problema é bem mais simples: há treinadores que nos desagradam, seja pelo seu estilo, seja pelas concepções de jogo, pela imagem que cultivam, ou por algum recalcamento encoberto. E não vem o mal ao mundo que tornemos público esse desagrado. Os gostos valem o que valem… Mas reconheçamos esta evidência: Carlos Queiroz tem um projecto coerente, de longo prazo, para as selecções. Após a apresentação pública do seu projecto foram surdas as críticas. Não procuremos razões obscuras para justificar o óbvio: todos os seleccionadores nacionais que não vão ganhar o campeonato do mundo serão contestados pela escassez de resultados. Até o próprio Scolari viveu este drama com os resultados que a selecção alcançou em tempo das vacas gordas.

Quanto à segunda linha argumentativa de Pedro Barroso, que as opções foram equívocas quanto à estratégia de jogo assim como às decisões táctico-técnicas, há que reconhecer as fragilidades da nossa selecção que são ainda mais evidentes no confronto com as melhores equipas do mundo. Como disse num post anterior, a selecção está num processo de reconstrução, há margem de progressão e saberemos aprender com estes erros. Reduzir esta discussão ao processo defensivo que foi ineficaz porque não acautelou a primeira fase de construção de jogo, ou às incidências do próprio jogo, pode fazer sentido quando se disseca um jogo, mas é abusivo partir desta análise circunscrita para a determinação da competência de um seleccionador nacional que defende um projecto com enorme amplitude e que ninguém, até à data, contestou.

Acabo de escrever estas linhas depois de saber que o Brasil perdeu a eliminatória com a Holanda. Foi encontrado mais um seleccionador inapto.

Não quero com isto dizer que todos os seleccionadores são competentes. O seleccionador grego, por exemplo, vencedor do Euro 2004, ficou a saber que era incompetente depois da Grécia não passar a fase de grupos neste mundial. O Dunga seria um seleccionador competente se vencesse a prova.

É uma lástima que a avaliação de competência dependa tanto da volatilidade dos resultados. É por isso que defendo que só se devem contratar treinadores ou seleccionadores depois de terminarem as competições, enquanto não encontrarmos modelos de avaliação mais consistentes.

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5 thoughts on “A quadratura do círculo – um comentário a um texto do Pedro Barroso.

  1. pedro barroso 03/07/2010 às 00:27 Reply

    nenhuma animosidade. absolutamente.
    estimo o carlos e tenho apreço por ele – para mim esta imperturbavel a amizade q sinto. o comentario é tecnico e ressalvo q nao o faço depender dos resultados mas das estrategias. e essas foram fraquinhas pifias defensivas muitas vezes erradas e pouco brilhantes. acondução de homens foi opaca e florentina.
    nenhum odio nem raiva pessoal. q disparate. gosto muuuuuuuuuuuuito do q faço mas n enjeito criticar o q é irritantemente patente – nada de especial – apenas conhecimento das coisas.
    é q, nem animica, nem estrategicamente, nem tacticamente, nem do ponto de vista de liderança de grupo as coisas estiveram bem. ser apurado com o credo na boca é positivo? empatar com 10 albaneses é glorioso? empatar c cabo verde é glorioso? nao sofrer golos sim, ok, mas e depois? nao atacar, dar ordens defensivas? nao ter um esquema de livres nem de cantos estudado?
    calma, carissimo – o homem falhou. os jogadores andavam aos papeis. ponto paragrafo
    amizade plena. se me perguntarem, o carlos é a mais competente e indicada pessoa em portugal para dirigir um centro de estudos sobre futebol, um projecto nacional de descoberta de valores e ensino da modalidade, um centro de documentação e fomento, uma programação séria e credivel de sistemas de preparação e competição.

    agora no banco e no balneario… falha.
    sporting, selecção da africa do sul, real madrid, portugal…
    eu tb nao dou concertos de saxofone. nao sei.
    era uma barraca monstra.

    mas fecho por aqui para n perder tempo com + futebois
    segue a luta clubista mas ate nisso tenho azar – sou do belenenses
    afinal haja humor – ninguem é perfeito
    pb

  2. pedro barroso 03/07/2010 às 00:36 Reply

    ja agora 2 pequenas correcções
    1 em qqr desporto colectivo a qualidade final deve sempre ser superior à soma das qualidade das partes – esse o potenciamento do trabalho do treinador.
    2 com algum humor no seu titulo, o espaço q cultivo é a quadratura do circo e nao do circulo…

    dá para entender a subtileza? o circo da vida… em q o cq tem sabido ser um excelente equilibrista….
    🙂

  3. Miguel Pinto 03/07/2010 às 01:02 Reply

    Viva, Pedro.
    Se me dizes que não há animosidade não tenho razões para duvidar. Ponto final.

    Sem evocar a investigação, não é possível, atendendo à inexistência de um quadro de referência que reúna um amplo consenso, determinar a competência de um seleccionador nacional a partir de um conjunto de “evidências”, cuja leitura é plural de sentidos, e a partir de algumas reacções ou amuos de 2 ou 3 “vedetas”. Não há volta a dar, Pedro.

    Podes dizer que os resultados das equipas que CQ treinou não foram nada de especial. Se formos por aqui, exceptuando meia dúzia de treinadores, anda meio mundo a enganar o outro.

    😆 quadratura do circo? Essa é boa… 🙂

    Abraço e volta sempre.

  4. Alberto Moura 31/08/2010 às 00:16 Reply

    Caro Pedro,

    Recebi o seu “manifesto” no meu email. Após pesquisar no google pelo seu nome acabei por achar este blogue. Admiro o empenho com o qual encetou a tarefa de esmiuçar a carreira, a liderança, o comportamento e a infância de alguém que carinhosamente qualifica de amigo. Julgo que ficaram porém, alguns pontos por esclarecer. Estes não dizem respeito ao carácter e opções do (ainda) seleccionador nacional mas ao mesmo Pedro Barroso, crítico de desporto com diploma do INEF.

    Não tendo partilhado a minha infância académica consigo, por mero impedimento geográfico/cronológico, consigo porém sentir a sua nobreza de carácter ao evocar as debilidades e inseguranças do colegial Carlos que certamente muito perdeu ao se afastar de tamanha fonte de sapiência e humildade encarnadas em músico popular português. Do alto do seu trono de trovador deu-nos a honra de partilhar com os reles mortais os seus pensamentos líricos, bafejados de conhecimento e lógica que fariam questionar os filósofos mais antigos. Ficamos felizes ao saber que soube resistir à tentação da fama e fortuna e soube perseguir causas mais nobres, as crianças de “Santa Comba do Semicúpio” agradecem, ainda que o país chore por um líder que para sempre perdeu. Choramos quando sabemos que um dos vultos mais amados e acarinhados do panorama musical nacional, conhecido pelos 4 cantos do que um dia foi o império lusitano, poderia ser afinal o D. Sebastião que por tanto pregámos! Um simples homem que transforma em premissas fortes e inquestionáveis as inteligentes deduções construídas a partir de restos- de- -informação-de-fonte-não-confirmada-de-veracidade-díficil-de-comprovar. Capaz de dominar os perigosos ventos do rumor e atá-los a uma árvore de saber factual. Um homem que entende como liderança um carácter despoluído de estudo e reflexão em favor da veemência que, ao que todos sabem, é uma demonstração de força e poder. Pedro sabe. Sabe que a persuasão que tenta incutir ao seu estilo literário é suficiente para aqueles que, como ele, desconhecem a razão. Mesmo desconhecendo as limitações destes que por sua vez desconhecem a sua. Sabe conquistar os pobres e os revoltados por aquilo que alguns qualificariam de eloquência, ignorando a lógica que estrutura os raciocínios mais elaborados. Sabe apelar aos seus medos e preconceitos magnificando-os ao sabor das suas vontades. Dotado de um sentido de amizade que faria corar os mais leais da nossa História, sejam eles Brutus ou Judas. Tudo em sentido de um bem maior: a esforçada tentativa de demonstração de um poder intelectual imenso, o seu, viúvo de factualização e concretização.

    Dessa fábrica de talentos que consitui o INEF, essa que ofereceu ao mundo os princípes do saber futebolístico internacional, construindo Mourinhos e Jesualdos, vieram também Silvas e Pereiras, tal como Barrosos. Ao contrário da congénere anterior, sedenta de reconhecimento e opulência, cega pelo brilho das riquezas, surgem estes semi-anónimos que abdicando de seus poderes sobrenaturais escolheram viver entre nós, como nós. Se um Mourinho é capaz de cativar milhares de jovens a perseguirem os seus sonhos e a lutar por estes até à exaustão, um Barroso é capaz de animar trinta e dois munícipes nas festas da camâra de Santa Comba (contando que não chova). Por essa humildade de escolha e dedicação a um bem maior, sabendo-se dotado de uma visão magnânima sobre as maleitas que afectam o mundo do desporto apenas nos resta louvar tal benfeitor. Mesmo que não convenha ser seu amigo.

    Barroso pode dizer a “CQ” que falhou. Poderá “CQ”, que treinou os melhores clubes do mundo e algumas grandes selecções do nosso planeta, que formou os melhores jovens futebolistas da nossa geração e que é reconhecido como um dos mais reputados treinadores das últimas décadas, poderá ele discordar de Barroso? Sabendo que Barroso poderia ocupar o seu lugar como quem escolhe sardinha ao invés de bifana se assim lhe convém, é melhor que não o faça.

    Talvez no dia em que D. Pedro, ladeado pela sua equipa de som, se eleve para enfrentar o dragão da crise que devora o nosso reino, seguido pelas hostes de um povo seduzido por falta de uma outra paixão, eu possa então dizer: “- Aquele que vedes, É Pedro! Deu um concerto no pavilhão da nossa escola C+S em Setembro de 1986… eu estava lá!”

    Um abraço… mas sem amizade, se não for pedir muito.

    Alberto Moura

  5. João Rodrigues 28/09/2010 às 05:11 Reply

    Brilhante Alberto! Brilhante!

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