É um plano inclinado, de facto!

Não resisto a reeditar um texto que escrevi em 2006 depois de assistir ao programa Plano Inclinado, que tem como protagonistas o moderador Mário Crespo, dois convidados residentes, Medina Carreira e Nuno Crato, e um convidado especial que é escolhido em função da temática. Nos dois últimos programas a Educação foi tema de debate e o Paulo Guinote, no primeiro, e Guilherme Valente, no segundo, lançaram o seu outroolhar.

É a retórica do “murro na mesa” de Medina Carreira e o caceteirismo teórico de Nuno Crato que mais me diverte neste programa. Confesso que parei o vídeo e “rebobinei” o filme para ouvir a fantástica definição eduquesa do eduquês proferida pelo Guilherme Valente:

“Já se percebeu o que é o eduquês. É uma mistura de ideologia política reaccionária à modernidade, as pedagogias ditas modernas mas que afinal não são modernas, o pós-relativismo… este eduquês gosta de indisciplina.”

E agora vai o texto e a reedição de um debate inacabado.

Rousseau e a crise do modo de pensar a educação…

Cartografia do debate
Depois do livrinho do Nuno Crato ter colocado no top dos lugares comuns o termo “eduquês” que foi, salvo erro, proferido pela primeira vez pelo ex-ministro da educação Marçal Grilo, tem varrido a blogosfera uma onda de anti-eduqueses críticos do(s) pensamento(s) de Rousseau. Não importa discernir as motivações e os interesses que os movem nas suas batalhas, mas interessa aclarar o debate e reafirmar que os discursos são bafientos e que esta discussão é um refluxo de uma discussão iniciada por Filomena Mónica em 1997, prolongada depois no Público por José Manuel Fernandes. Essa discussão, que envolveu muitos articulistas consagrados, motivou a edição de dois pequenos livros, editados pela Profedições, do António Margalhães e do saudoso Stephen Stoer.
Como os discursos anti-eduqueses escolheram como alvo a abater Rousseau e as Ciências da Educação, nada melhor do que deixar aqui o contraditório, escrito por estes dois autores que se dizem “Orgulhosamente Filhos de Rousseau” [1998, profedições, esgotado].

Observem como esta pergunta continua actual:
"O que é que estará a acontecer na ordem social portuguesa para que, no que diz respeito à educação e ao sistema educativo, vozes mais ou menos autorizadas se levantem contra a influência de Rousseau? Na verdade, parece ter-se criado um consenso acerca da culpa e dos culpados dos problemas do nosso sistema educativo:
Rousseau e os seus sequazes.
As ideias que os apóstolos de Rousseau seguiriam e com que teriam envenenado todo o sistema e respectiva orientação política seriam: a) a assunção de que o centro do processo de ensino-aprendizagem são as crianças e os jovens e não o corpo do saber a ensinar; b) que o processo deve ser adequado às características afectivas e gnosiológicas destes; e c) que o ensino deve ser articulado e articular processos de aprendizagem, ser, em suma, ensino-aprendizagem.
Contudo, os protagonistas dos ataques aos filhos de Rousseau, não se ficam por aqui. J. M. Fernandes (JMF), na esteira de Filomena Mónica, avança que a nefasta influência do filho do relojoeiro de Genebra promove uma «desresponsabilização geral» que «é corolário lógico de uma "democracia de base" que toma cada estabelecimento de ensino numa espécie de comuna autogerida que não presta contas a ninguém» (Público, 22 de Dezembro).
Retoricamente irado, JMF diz que tudo isto está errado, porque «a democracia é o império da lei» (ibid.).
De facto, tudo é cozinhado numa retórica de "murro na mesa", de "basta", que impressionará os mais distraídos, mas que deve consistir em objecto de reflexão. É que a questão que é obnubilada é esta: as políticas educativas são construídas num espaço plural de forças, poderes e influências em que o contexto académico, do Estado e dos grupos de trabalho entretecem lógicas díspares e múltiplas, impossíveis de unificar num só vector teórico e político.
Por isso, a posição de "murro na mesa" é caceteirismo teórico, porque pouco subtil, pouco dada à captação das diferenças, dos matizes (veja-se a controvérsia gerada sobre o caso dos "currículos alternativos"). Na verdade, a autogestão comunal que as escolas praticariam, nas palavras de JMF, é uma flor retórica bem grosseira, pois qualquer aluno, qualquer professor, qualquer auxiliar da acção educativa, por mais distraídos, sabem que isso é um disparate.
Mas, e essa é a força da retórica e dos meios de comunicação social, pode ser transformado em verdade, em facto, em prova contra os filhos de Rousseau." [pp. 31-32]

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4 thoughts on “É um plano inclinado, de facto!

  1. IC 06/05/2010 às 23:59 Reply

    Não conheço os citados livros de António Margalhães e Stephen Stoer. Mas logo a deguir ao tal livrinho de Nuno Crato, que me agoniou pela falta de honestidade intelectual ao deturpar ideias citando minúsculas frases retiradas dos contextos, e também mostrou algumas ignorâncias ‘filosóficas’, foi publicado por Álvaro Gomes um livro com duas partes, sendo a primeira uma resposta sabedora a NC e bem merecida por este – “Blues pelo Humanismo Educacional?”, Eds. Flumen. Deliciou-me e fiquei “vingada” do vómito que tivera, mas, claro, apesar da sua obra imensa, o livro de ÁG não andou semanas em destaque nos escaparates das FNACs.
    (Miguel, deves lembrar-te de AG, quando nos deu a honra de acompanhar um tempinho os nossos blogues, como tb os da 3za e da Idalina)

  2. […] Oliveira a provedor para a qualidade do ensino, já! (para ler, clicar na imagem) Já aqui fizera referência à esotérica intervenção de Valente de Oliveira (VO) no programa televisivo […]

  3. MP 24/05/2010 às 12:24 Reply

    O livrinho de Nuno Crato teve múltiplas edições, talvez porque seguia a moda anti-rousseau prevalecente, talvez pela publicidade, talvez… sabe-se lá!
    Já o “Blues pelo Humanismo Educacional?” desapareceu, literalmente, do mercado. Encontro alguns excertos em alguns blogs, algumas referências aqui e ali, mas o livro esfumou-se. Porque será? Publicidade não teve. Nenhuma. Nunca vi.
    Será que mostrava ou demonstrava a falta de alicerces do livrinho de NC? Será que produzia demasiada urticária? Quem sabe?
    Pena ver e ouvir os “caceteirismos teóricos” demolidores do Plano Inclinado sem contraditório, sem que haja uma voz que, no mínimo, palpite como abrir outros caminhos. Implodir é demasiado fácil, sobretudo se não se tiver de provar a bondade da implosão. Há ali demasiado vinagre. Tudo muito destemperado. Talvez tudo muito velho (quem falou em “ranço”?). Pena.

  4. Miquelina Infiltrada 24/08/2011 às 00:30 Reply

    O livrinho de António Margalhães e Stephen Stoer.é um vómito. Li aquilo de um trago só e fiquei a pensar se terá sido escrito após uma longa e penosa bebedeira. Intelectualmente é uma ofensa. Trata-se de uma demonstração pública de ressabiamento e de maus sentimentos, muito típicos da esquerda caceteira que anda por aí.

    Há uma afirmação antástica nesse livro: indignam-se os autores com a frase “não podem ser todos doutores”, e exclamam, com vários pontos de exclamação como fazem as adolescentes histéricas, “não podem ser todos doutores?!?!?!?!?!?” Pobrezinhos…

    Rousseau era um imbecil apalermado, todos o sabem. Um valente filho da puta que até enjeitou os seis filhos que teve das criadas.

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