Mais vale tarde… ou o corno é sempre o último a saber?

O Governo reconhece que as provas de recuperação, realizadas pelos alunos que ultrapassam os limites de faltas, são uma "sobrecarga de trabalho" para os professores, "sem que se vislumbre um impacto" na melhoria das aprendizagens e no sucesso escolar.

"[…] o regime da prova de recuperação tem comportado, para os professores, uma sobrecarga de trabalho, sem que se vislumbre um impacto desse esforço na melhoria das aprendizagens e no sucesso escolar dos alunos […]", lê-se na proposta de lei do Governo de alteração ao Estatuto do Aluno.

Proposta de lei do Governo de alteração ao Estatuto do Aluno?

A IGE, o X Congresso da Fenprof, e Abril ainda por fazer.

José Calçada, presidente do Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino, fez uma intervenção no X Congresso da Fenprof que é, a meu ver, politicamente significativa. Além de tentar conceptualizar o papel da Inspecção, enfatizando a sua função na promoção da qualidade das aprendizagens e do ensino, alertou para o perigo da instrumentalização e governamentalização da IGE, perigo que é mais real do que um simples exercício de retórica possa fazer crer, e que já motivou, num passado muito recente, uma Carta Aberta do SIEE.

José Calçada levanta três simples questões, cujas respostas serão irritantemente óbvias, que nos permitem aclarar o lado mais obscuro das lógicas que subjazem às políticas educativas deste governo.

Por que razão a IGE foi afastada das actividades de enriquecimento curricular?

Por que razão a IGE foi afastada do Ensino Especial?

Por que razão a IGE foi afastada das Novas Oportunidades?

Abril

Abril de sim, Abril de Não
Manuel Alegre

in: National GeographicEu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.
Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.

Demagogia

Ninguém acredita que seria possível um acordo entre o ME e os sindicatos em TODAS as matérias que os dividem. Se os sindicatos passam a ser responsabilizados por tudo o que não foi acordado, ninguém poderá exigir dos sindicatos um acordo, certo? Logo, aqueles que acusam os sindicatos de traição por não defenderem os seus interesses advogam, inequivocamente, o NÃO-ACORDO porque é impossível um ACORDO que a todos contentem.

DN: «Professores contratados acusam sindicatos de traição»

Avaliação vai contar para concursos, porque terá sido mal negociada com o Ministério

Reli o acordo de princípios e este assunto não fez parte das matérias acordadas. A Avaliação vai contar para concursos, não porque tenha sido mal negociada com o Ministério mas porque não foi sequer negociada. Devia ter sido negociada? Certamente! Desde que a outra parte estivesse interessada em negociar, em condescender,… O que não veio a verificar-se, como se sabe.

Pinto de Sousa quer tapar o sol com a peneira.

O acordo entre o ME e a Fenprof acabou por ser, a meu ver, surpreendente. Não foi surpreendente pelas razões evocadas por alguns bloggers e movimentos de professores que ainda blasfemam o acordo. Foi surpreendente porque sempre entendi que o Sr. Pinto de Sousa nunca desejou qualquer entendimento com os professores, como escrevi aqui.

Pareceu-me evidente que havia da parte do governo uma estratégia pré-eleitoral de vitimização onde estava subjacente uma ideia de ingovernabilidade, estratégia que seria obstaculizada com qualquer tipo de entendimento. Afinal estava enganado, apenas em parte como se vê, porque o acordo foi assinado embora os resultados efectivos demoram a aparecer. E estava enganado em parte porque o Sr. Pinto de Sousa continua a dar provas de que não quer nada com os professores e que tudo fará para os fustigar pelos danos eleitorais e consequente perda de maioria parlamentar.

Este imbróglio em torno dos concursos de professores contratados acaba por suscitar, uma vez mais a questão: Será que Isabel Alçada vai continuar disposta a fazer de figurante neste cenário de eleições antecipadas ou será que ainda vai a tempo de bater com a porta ao senhor Pinto de Sousa saindo deste filme de baixo nível com a sua dignidade imaculada? Isabel Alçada teve agora, de facto, a sua oportunidade para sair em alta. Depois de ter permitido que as estruturas intermédias do ME dessem sinais às escolas de que as classificações da anterior ADD não seriam relevadas para o ordenamento da graduação profissional, depois de ter dado “garantias” às estruturas sindicais de que iria retirar dos concursos esse factor de distorção de graduação profissional, Isabel Alçada não podia ceder, como cedeu, aos caprichos do Sr. Pinto de Sousa. Ao ser conivente com ele, Isabel Alçada acaba por confirmar o seu destino.

Por que razão Pinto de Sousa decidiu, uma vez mais, tocar na ferida e provocar os professores? Que vantagens vê ele neste braço de ferro político?

Estou tentado a procurar razões no domínio do psicologês, procurando traumas de infância ou até malformações identitárias. Não, não irei por aí porque não vale a pena. O que sei é que há razões políticas que podem justificar o atrevimento do Sr. Pinto de Sousa: Portugal (está) novamente na mira dos economistas internacionais. A dívida pública de Portugal será a maior fonte de preocupações da zona euro nos próximos meses, diz o economista chefe da empresa britânica de gestão de ativos Ignis, juntando-se a vários especialistas internacionais.

Ora, uma onda de contestação dos professores poderia ofuscar a discussão em torno das desastrosas políticas económicas e financeiras fazendo distrair o pacóvio. É uma tese simplória… mas como nem sempre vemos o óbvio…

E não se infira do que escrevo que defendo a resignação dos professores. Bem pelo contrário: Deve inferir-se que qualquer acção de luta dos professores deve ter em conta o contexto macro-político de governação.