Pinto de Sousa quer tapar o sol com a peneira.

O acordo entre o ME e a Fenprof acabou por ser, a meu ver, surpreendente. Não foi surpreendente pelas razões evocadas por alguns bloggers e movimentos de professores que ainda blasfemam o acordo. Foi surpreendente porque sempre entendi que o Sr. Pinto de Sousa nunca desejou qualquer entendimento com os professores, como escrevi aqui.

Pareceu-me evidente que havia da parte do governo uma estratégia pré-eleitoral de vitimização onde estava subjacente uma ideia de ingovernabilidade, estratégia que seria obstaculizada com qualquer tipo de entendimento. Afinal estava enganado, apenas em parte como se vê, porque o acordo foi assinado embora os resultados efectivos demoram a aparecer. E estava enganado em parte porque o Sr. Pinto de Sousa continua a dar provas de que não quer nada com os professores e que tudo fará para os fustigar pelos danos eleitorais e consequente perda de maioria parlamentar.

Este imbróglio em torno dos concursos de professores contratados acaba por suscitar, uma vez mais a questão: Será que Isabel Alçada vai continuar disposta a fazer de figurante neste cenário de eleições antecipadas ou será que ainda vai a tempo de bater com a porta ao senhor Pinto de Sousa saindo deste filme de baixo nível com a sua dignidade imaculada? Isabel Alçada teve agora, de facto, a sua oportunidade para sair em alta. Depois de ter permitido que as estruturas intermédias do ME dessem sinais às escolas de que as classificações da anterior ADD não seriam relevadas para o ordenamento da graduação profissional, depois de ter dado “garantias” às estruturas sindicais de que iria retirar dos concursos esse factor de distorção de graduação profissional, Isabel Alçada não podia ceder, como cedeu, aos caprichos do Sr. Pinto de Sousa. Ao ser conivente com ele, Isabel Alçada acaba por confirmar o seu destino.

Por que razão Pinto de Sousa decidiu, uma vez mais, tocar na ferida e provocar os professores? Que vantagens vê ele neste braço de ferro político?

Estou tentado a procurar razões no domínio do psicologês, procurando traumas de infância ou até malformações identitárias. Não, não irei por aí porque não vale a pena. O que sei é que há razões políticas que podem justificar o atrevimento do Sr. Pinto de Sousa: Portugal (está) novamente na mira dos economistas internacionais. A dívida pública de Portugal será a maior fonte de preocupações da zona euro nos próximos meses, diz o economista chefe da empresa britânica de gestão de ativos Ignis, juntando-se a vários especialistas internacionais.

Ora, uma onda de contestação dos professores poderia ofuscar a discussão em torno das desastrosas políticas económicas e financeiras fazendo distrair o pacóvio. É uma tese simplória… mas como nem sempre vemos o óbvio…

E não se infira do que escrevo que defendo a resignação dos professores. Bem pelo contrário: Deve inferir-se que qualquer acção de luta dos professores deve ter em conta o contexto macro-político de governação.