A Escola do Leandro

O caso Leandro fará regressar a Escola ao centro do debate, não só na comunicação social como na blogosfera. A tragédia irá ser dissecada nas suas causas mais próximas porque há que tomar medidas cautelares para retardar a ocorrência de outras vítimas, mas é bem provável que a discussão seja guiada para um nível mais geral onde poderá ser questionada a finalidade da escola.

E sem me perder em derivas conceptuais, irei directamente à questão provocatória:

Será indiferente saber a finalidade da escola para se discernir o grau de responsabilidade da organização em tragédias desta natureza?

Afunilando a questão: Uma Escola que Educa terá mais responsabilidades do que uma Escola que se preocupa fundamentalmente com o Ensino?

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7 thoughts on “A Escola do Leandro

  1. Paulo G. Trilho Prudêncio 04/03/2010 às 21:11 Reply

    Viva Miguel.

    Afunilando a questão: uma escola só (sem a sociedade) e a tempo inteiro será um desastre (anunciado). Um escola que não ensine, olha vou buscar uma coisa que escrevi há tempos:

    Um dos muitos debates a que se assiste é sobre o que se faz na escola ou no que lá se deixa de fazer.

    O mais comum é considerar-se a escola como um espaço de encontro e de aprendizagem, e, para evitar redundâncias, reduzir a classificação apenas ao lugar de aprendizagens para uma formação integral (mais uma formulação imperceptível inventada pela pedagogia moderna). Esse facto não é questionado nem interna nem externamente mas somente por quem observa a sobrecarga do caderno de encargos desta instituição; e é nesta última asserção que tudo se joga.

    Em vez de se discutir o que se aprende, e mais do que isso, de remeter para e escola desde o atravessamento na passadeira até ao consumo excessivo de gomas e de rebuçados, é fundamental definir o que é que se ensina.

    A educação é de toda a sociedade: gritemos em desespero de causa.

    Abraço.

    • Miguel Pinto 04/03/2010 às 21:48 Reply

      Tenho sérias dificuldades em aceitar a ideia de que a escola é uma entidade exterior à sociedade, como se ela própria não fosse sociedade também. Percebo a necessidade de a isolar para se aclarar o conceito. Mas prefiro pensar na escola como microcosmos societal. Como um espelho da comunidade global, com as suas idiossincrasias, mas sempre integrada. É por isso que considero redundante aquela estória de abrir a escola à comunidade, dando a ideia de que a comunidade é um todo homogéneo, o que não é.
      Mas regressando à tua questão afunilada 😆 , eu não defendo a ideia peregrina de alguns políticos com responsabilidades executivas que não só pensaram como reduziram as funções da escola à função de custódia. A escola que eu defendo é uma escola que educa e que não tem de substituir a família e que tem de cumprir duas funções principais, e não colocaria nenhuma delas sobreposta à outra: – a difusão e incremento do conhecimento e da cultura em geral (software); – o estímulo ao desenvolvimento da personalidade do sujeito. E não separaria uma da outra porque a escola é o espaço privilegiado para potenciar capacidades (hardware). E não tenho receio de usar aquilo que consideras uma formulação imperceptível inventada pela pedagogia moderna: a formação integral é aquilo a que Coménio fazia referência quando escrevia que a escola é a oficina da humanidade. Não percebo por que fugir a esta evidência?
      Mas faz todo o sentido, como dizes e bem, discutir o que se aprende: Dentro e fora da escola!
      Obrigado pelo teu comentário estimulante, Paulo. 🙂

  2. Paulo G. Trilho Prudêncio 04/03/2010 às 22:15 Reply

    Viva Miguel.

    Eu é que agradeço os teus estimulantes posts e comentários.

    Desculpa mas vou recorrer de novo a um post que acabei de publicar:

    Por muito que custe aos defensores das desastrosas políticas Educativas do anterior governo, o cerne da defesa do poder da escola democrática vai ganhando terreno e torna-se uma evidência. Foi por assentar num conjunto de ideias estruturadas, que os professores resistiram contra tudo e contra todos e vão registando vitórias consecutivas – embora algumas ainda sejam ténues ou de resultado mais distante no tempo -.

    Bem sei que para alguns fazedores de opinião a verdadeira motivação do núcleo de professores que constrói a sua argumentação a partir do interior das salas de aula é uma retórica destinada aos importantes objectivos financeiros ou de carácter corporativo – também legítimos, por falar nisso -.

    Mas o que se está a tornar indestrutível é o olhar de uma escola que se quer redefinir em tempos de pós-modernidade (sociedade heterogénea, aberta, relativista, incerta, plural e abundante de informação) e de globalização. Não adianta remeter os autores do discurso “resistente” para o lugar dos conservadores e não necessariamente dos progressistas; é um logro, como se tem visto.

    Entre tantos outros parâmetros, o que começa a prevalecer (e com tanto que podia escrever sobre o assunto) são as ideias de escola, de autoridade, de ensino ou de transmissão de saberes em detrimento dos conceitos de conhecimento, de informação, de aprendizagem e de ao longo da vida (estes últimos são tão óbvios e tão eternos que entraram num processo de autofagia).

    Quem são os responsáveis, políticos, económicos e sociais, pelas ideias em queda? Em primeiro lugar, os mesmos da hecatombe financeira. E os professores que não se iludam: se a discussão mais técnica se situa no interior do sistema escolar, a problemática mais decisiva está no seu exterior e no chamado universo da política.

    Abraço.

    • Miguel Pinto 04/03/2010 às 23:02 Reply

      “E os professores que não se iludam: se a discussão mais técnica se situa no interior do sistema escolar, a problemática mais decisiva está no seu exterior e no chamado universo da política.”
      Os contextos onde se problematizam as determinantes do trabalho dos professores são eles próprios confusos, Paulo. E como se não bastasse aos professores terem de enfrentar forças burocráticas da modernidade, têm de saber discernir os significados da pós-modernidade. Não é fácil.
      É por isso que insisto num chavão adaptado mas que parece apontar uma saída: um professor que só sabe ensinar, nem ensinar sabe.
      Abraço.

  3. Paulo G. Trilho Prudêncio 04/03/2010 às 23:56 Reply

    Viva Miguel 🙂

    Voltei, mas uma volta breve. “Um professor que só sabe ensinar, nem ensinar sabe.” Pois bem: e um professor que não sabe ensinar? Não sei o que é, mas professor não é com toda a certeza 🙂

    Noutro dia falavas da mudança do paradigma sindical de um modo muito bem fundamentado. Por isso me admirei por não te teres surpreendido com um acordo financeiro pífio (como se comprova) em finais de Janeiro e uma greve na primeira semana de Março; mas isso é matéria da mesquinhez e do palacianismo da capital. Também a mudança do paradigma da escola moderna (afunilou no chamado eduquês e no inferno de má burocracia) tem de seguir o seu caminho. Mudando o discurso, desde logo.

    Abraço.

    • Miguel Pinto 05/03/2010 às 01:25 Reply

      Viva Paulo
      “Pois bem: e um professor que não sabe ensinar? Não sei o que é, mas professor não é com toda a certeza.”
      Claro, claro. Esta coisas de aprender a ensinar começam por ser resolvidas a montante da Escola, Paulo. E se alguém não faz o que deve fazer na formação de professores, o melhor é fechar para obras 😉

      Quanto à mudança de paradigma sindical, parece-me evidente que todos desejamos a mudança por todas as razões e mais uma: significaria que as questões financeiras deixariam de ser um entrave à própria mudança. Ora, enquanto o professor deixar de participar em eventos culturais por razões financeiras, enquanto o professor for tratado como operário da educação ao invés de ser tratado como homem de cultura, o sindicalismo clássico tem terreno fértil para germinar. Quem deveria promover essa mudança deveria desejar esse professor cultural. A demissão do Estado nesta matéria é preocupante!

      Não interpretes do meu comentário anterior um desejo de mudança de paradigma que pretensamente teria conduzido ao famigerado eduquês. O problema não é o modelo mas a perversão desse modelo. E talvez valha a pena aclarar que a “minha” Escola Cultural não é uma escola do passado mas uma alternativa perfeitamente viável para a escola do futuro.
      Abraço.

      PS (salvo-seja): Agora tenho de sair a correr para acompanhar os teus lakers 🙂

  4. […] 05/03/2010 at 7:30 PM | In Pensar hereticamente | Leave a Comment Mais em baixo mantive uma boa conversa com o PPrudêncio suscitada pela questão: Uma Escola que Educa terá mais […]

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