Exames à medida de uma escola taylorista.

O Ramiro desafia-me a colaborar com um texto curto sobre os exames. Dispensar-me-ei da contextualização para passar directamente às razões que me levam a olhar com desconfiança o elogio à psicometria como panaceia para resolver os males do sistema educativo.

Tudo aquilo que parece estar no âmago de uma educação de qualidade não é medido em provas de exames:

Aprender a respeitar, aprender a fazer perguntas relevantes e resolvê-las, a determinar o que é importante e válido, a aprender o contexto.

Pelo contrário, os exames concentram-se em aspectos secundários como a memorização de informações que suscitam uma padronização de aprendizagens fechadas e que servem bem os objectivos de uma escola taylorista. Perversamente, esta escola olha para o aluno como um objecto, com mão-de-obra ou peça descartável para o mercado de trabalho.

Dir-me-ão os defensores dos exames que os meus argumentos são pouco objectivos e os cratenses podem ir mais longe conotando a minha retórica com o eduquês. Quanto à pretensa objectividade que induz os exames nacionais, subscreverei o pensa o JMAlves “Se os defensores dos exames soubessem os mecanismos que produzem os resultados que acabam por estruturar os rankings nacionais, certamente seriam mais prudentes na cega apologia que deles fazem. Insuperáveis problemas de fiabilidade; ameaças à validade de itens (e instrumentos); crise de confiabilidade exigem outros dispositivos de credibilização social.

Não, não me refugio em pretensas objectividades porque induzem rigor e seriedade. Se assim fosse, deixaria de ser professor porque ser professor é lidar com a subjectividade e com a discricionariedade. Pensar que é possível reduzir o ensino a uma folha de cálculo poderá até induzir confiança nos professores, mas é uma mistificação da realidade educativa.

O Ramiro diz que os adeptos dos exames argumentam:

“Os exames nacionais a todas as áreas curriculares no final de todos os ciclos de ensino permitem pôr termo à justificação das múltiplas prestações de contas da escola a diversas estruturas: conselho geral, pais, IGE, DRE e DGRHE.”

Como? Não percebo como é possível evitar a prestação de contas através dos exames. E depois, não estou a ver qual é o problema de prestar contas…

“Os exames nacionais provocam um aumento do tempo dedicado ao estudo por efeito da preparação para os exames. “

Errado. Os exames provocam uma reconfiguração do tempo de estudo que é sacrificado para as rotinas de exame. Um desperdício de tempo …

“Os exames dão resistência e promovem a resiliência.”

Os exames dão resistência e promovem a resiliência uma vez no ano. É pobre o ensino que não encontra instrumentos adequados para promover estas capacidades ao longo do ano.

“Os exames preparam os alunos para aquilo que a vida lhes reserva: trabalho, esforço, concentração, sacrifício e resistência.”

Não são os exames que preparam os alunos para a vida. São os professores que preparam os alunos para a vida. Com ou sem exames.

“Os exames permitem avaliar com seriedade e rigor o sistema de ensino e as escolas, desde que sejam introduzidos factores de ponderação que tenham em conta o peso da variável económica, social e cultural.”

Eu até aprecio as subjectividades. Mas espero que os defensores do rigor saibam determinar com rigor o que é o rigor e como é que se afere o peso da variável económica, social e cultural!…

Anúncios

5 thoughts on “Exames à medida de uma escola taylorista.

  1. Susana Marques 24/02/2010 às 22:40 Reply

    Concordo plenamente, Miguel.
    Basta reparar no que se passa actualmente com as disciplinas de exame e com a lógica do acesso ao ensino superior para compreender que não são os exames a cura de todos os males, mas muitas vezes o motor da subversão de uma educação que se pretende (?) eclética e formativa: tudo gira à volta das disciplinas de exame, todo o planeamento de actividades respeita os seus timings (incluindo as próprias aulas, as quais acabam por ter que ser repostas sob pena de prejudicar os resultados dos alunos… nos exames, muitos professores dão aulas extra, para preparação dos alunos… para os exames, deixam de se efectuar actividades enriquecedoras para não “prejudicar (?) os alunos… nos exames). As disciplinas sem exame, nomeadamente as de formação geral, não são (?) “importantes” porque não têm exame, retirando tempo aos alunos para o que vai ser importante, para entrar no curso que pretendem… Mas atenção ao ensino particular, que corre a 20’s os alunos em toda e qualquer área curricular que não tenha o dito exame a aferi-la.

  2. Líricos 01/03/2010 às 11:42 Reply

    Isto é lirismo, nada mais: Os professores não podem ter como objectivo (embora muitas vezes sejam obrigados a ter por força dos alunos que possuem) preparar os alunos para a vida, pois essa é uma competência dos pais/avós/encarregados de educação. Os professores ensinam, cada um na sua área.
    Claro que os exames provocam um aumento de tempo dedicado ao estudo, mais que não seja, porque os professores, de disciplina sujeitas a exames nacionais, exigem mais (e ainda bem) pelo seus alunos. Para mim (professor e pai) os exames nivelam os graus de dificuldade que todos devem aplicar aos conteúdos que leccionam.
    Os alunos podem/devem ter outras actividades enriquecedoras, mas tal não deve prejudicar o ensino dos diversos conteúdos: Um aluno não pode sair do secundário sem saber e os exames obrigam a que eles saibam, caso contrário poderia ser o caos.
    Sem avaliação transversal ao país não é possível ter conclusões sérias sobre a qualidade do ensino.
    “ser professor é lidar com a subjectividade e com a discricionariedade”: Não há uma letra com a qual concorde, faz-me lembrar alguns colegas que conheço, mas cujos resultados práticos daquilo que os seus alunos sabem é uma desgraça, mas, vá lá, portam-se bem, interessam-se e participam em muitas “actividades enriquecedoras”.
    Ser professor é saber e ensinar mas para isso, ser professor é também saber lidar com os alunos incentivando-os, saber aplicar regras de comportamento, etc, etc, etc, mas sempre com o objectivo final de dar conhecimentos aos alunos (não filhos).
    Para terminar, deixo duas questões, por mera curiosidade pessoal: O autor deste post é pai? Em caso afirmativo, o que pretende da escola para o(s) seu(s) filho(s)? Que dê educação ao filho? Não obrigado.

  3. Miguel Pinto 01/03/2010 às 19:48 Reply

    Anónimo Líricos
    Por muito que lhe custe admitir, o(s) seus filho(s) serão bem ou mal educados na escola assim como em qualquer outro local que frequentem. A questão principal não é saber se a escola é ou não um local onde se educa. A questão principal é saber como garantir/proporcionar qualidade na educação que é transmitida na escola.

    Volte sempre.

    • Líricos 03/03/2010 às 01:11 Reply

      Não me custa nada aceitar que tudo pode/poderá influenciar o meu filho, apenas digo que não vou nem quero passar a responsabilidade de o meu filho ser educado pela escola. São, claramente, duas coisas diferentes.
      Quanto à sua segunda afirmação, digo-lhe que a escola deve garantir e proporcionar qualidade na educação, mas no que diz respeito aos conhecimentos. Como o deve fazer? Com professores bem preparados cientifica e pedagogicamente e que possam exercer a sua profissão com rigor. É nesta última palavra que está, como sabe, a grande dificuldade do professor tendo em conta o estatuto do aluno, o funcionamento das escolas na sua ânsia em ter alunos, mantê-los na escola a todo o custo, questões de financiamento, abertura de novos cursos, funcionamento dos cursos educação e formação e, ainda, dos cursos profissionais. Enfim, a escola pensa em muita coisa e vai descurando aquilo que é o fundamental: Ensinar, aos alunos, os conteúdos que lhes permitam saber e saber fazer. O saber ser tem que ser trabalhado com o objectivo de se conseguir fazer progredir o alunos nas outras duas áreas (saber e saber fazer), nada mais.
      Claro que temos um problema: Alunos com famílias problemáticas. Mas, nestes casos, a segurança social é que deve entrar em funções e garantir aos alunos aquilo que os pais não querem/não sabem/não podem dar: Educação no sentido da sociabilidade. O respeito de certas regras dentro da sala de aula, não pode nunca ser confundido com a Educação que tenho mencionado.
      Para finalizar, só umas frases:
      1 – Não quis responder às questões que lhe coloquei.
      2 – Não comentou, em concreto, nada do que tinha escrito anteriormente.
      3 – Penso que devo, aqui, um pedido de desculpas pelo modo agressivo como escrevi o comentário anterior, mas tenho pena que se discuta tanta coisa e se deixe de fora o mais importante objectivo da escola: Transmitir conhecimentos. Foi para isso que estudei com o objectivo de ser Professor.

  4. Miguel Pinto 03/03/2010 às 22:59 Reply

    Car@ anónimo Líricos
    Pergunta se o autor deste post é pai?
    Sou pai.
    E depois quer saber o que pretendo da escola para a minha filha?
    Uma escola que cumprisse os objectivos da Escola Cultural (presumo que já ouviu falar).
    Que dê educação ao filho? Claro. Que dê educação da boa.

    Quanto ao restante comentário, voltarei brevemente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: