A tranquilidade vai voltar às escolas?

Pergunta o Público: “A tranquilidade vai voltar às escolas? As perdas de qualidade do ensino, por via do prolongado conflito agora encerrado, são irreparáveis? Ou, pelo contrário, existem agora mais e melhores condições para inverter o caminho? Seis respostas sobre o que espera a educação em Portugal.”

Pelo teor das respostas, presumo que @ jornalista do Público questionou o inquiridos com a questão genérica: Que portas abre o acordo entre o Governo e os sindicatos?

Mas como ninguém respondeu directamente à questão, eu insisto: A tranquilidade vai voltar às escolas?

A minha resposta é Não! A tranquilidade, a paz, ou a acalmia, não vai voltar porque nas escolas continuam os mesmos professores e as relações profissionais não se alteram com acordos de intenções (ou de princípios).

O individualismo é uma marca inexorável da cultura profissional docente. Ver mais longe do que a distância do próprio umbigo é um desafio imenso que se coloca aos professores. É evidente que não estamos perante um problema novo. O individualismo é uma forma de cultura profissional. A investigação avança com dois tipos de explicação para os factores que determinam o individualismo. No primeiro e mais tradicional, o individualismo é associado à desconfiança, aos comportamentos defensivos e à ansiedade; a defeitos e fracassos dos professores, que seriam em parte «naturais» e em parte resultado das incertezas do seu trabalho. (Hargreaves)

Bastou acenar com um sistema de avaliação invasiva, que entra pela sala de aula dos professores, para que se confirme a tese de Hargreaves (David): «O culto do individualismo», defende ele, «tem infectado profundamente a cultura ocupacional dos professores». Estes «guardam ciosamente a sua autonomia». Não gostam de ser observados, e ainda menos avaliados, porque receiam as críticas que podem acompanhar tal avaliação.

Ora, regressando um cenário de avaliação invasiva, voltará a intranquilidade. E como a avaliação está agregada à progressão na carreira, e como só a avaliação dentro da sala de aula permitirá acelerar na carreira, a paz podre desapareceu irremediavelmente das escolas.

Habituem-se! Ou resignem-se! Ou deixem-se de umbiguismos e privilegiem a acção Política!

7 thoughts on “A tranquilidade vai voltar às escolas?

  1. “Estes «guardam ciosamente a sua autonomia». Não gostam de ser observados, e ainda menos avaliados, porque receiam as críticas que podem acompanhar tal avaliação.”
    E esta não será uma reacção normal? Quando na maior parte dos casos os avaliadores são: cientificamente inferiores, têm menos experiência, pouco objectivos, têm os seus preferidos – avaliadores formados em pacote ou sem experiência.
    – Querem avaliar o trabalho na sala de aula?
    Então os colegas de grupo têm de estar sempre presentes no momento da avaliação do docente, para este e os companheiros verificarem a “categoria” do avaliador.

    “Ou deixem-se de umbiguismos e privilegiem a acção Política!”

    Miguel, o que é queres dizer com isto?

    A acção política morreu no momento da assinatura do acordo, acordo este assinado à pressa com centenas de questões pendentes e milhares de duvidas. Vai ao blog do Guinote. Agora, por maior razão que tenha o professor na sua reivindicação, pelo menos em 4 anos, a luta sindical nunca terá 1/10 da força anterior. E os profs dirão? Manif, greve, novamente? Não contem comigo.

    A Fenprof capitulou! E estranhamente, pois a maioria parlamentar não é Socretina! Obviamente as direcções do PCP e do BE aplaudiram, para não parecerem sectárias.

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    1. Terás reparado que o texto não é exclusivamente opinativo. A primeira parte busca algumas razões que parecem justificar uma determinada cultura profissional, a que eu designei de individualista. A minha opinião sobre a ADD está aqui ( https://olhardomiguel.wordpress.com/2009/12/06/desmitificar-a-add-defender-uma-avaliao-sem-classificao/ ) e não me canso de afirmar que a coisa não vai dar certo. Disse tb que este acordo é bom mesmo considerando os problemas que teremos de enfrentar com a aplicação de um modelo de avaliação conceptualmente pobre. Tb tenho afirmado que o acordo melhorará substancialmente o teor do DL 270/2009 e que andar sistematicamente a pensar no ECD anterior a 2007 só pode ser por masoquismo ou por necessidade de alienação.

      Quando sugiro que se deixem de umbiguismos e privilegiem a acção Política quero dizer que as lamechas do costume, designadamente, de que os sindicatos não nos defendem, ou que não cuidaram devidamente dos interesses dos professores, ou que agora não contem comigo para as lutas, etc, etc., são as evasivas habituais que apenas servem para justificar a inacção e traduzem um modo individualista de viver a profissão.
      A ironia do destino, digo eu, é que foi esta atitude defensiva que nos conduziu à situação actual.
      É por isso que apelo à participação política. A não ser que esperem que os outros decidam por nós…
      Fui mais claro? 🙂
      Abraço, Zé Manel

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  2. Adoro a parte em que tu não consegues escrever o meu nome.
    Arranja para aí qualquer coisa para o cotovelo.
    Está frio, não estou para remoques.
    Olha aparece dia 16 para jantar connosco e deixa-te de tretas.

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    1. Não te fazia tão susceptível, Paulo. Se reparares bem, nesta coisa de referências a bloggers, é normal tratar os meus confrades desse modo. Dou-te o exemplo da Isabel Campeão que trato carinhosamente por IC, sem desprimor para os restantes colegas blogoEsféricos a Isabel é das pessoas que mais considero na blogosfera por razões que não importa aqui detalhar, como podia alargar os exemplos para os meus confrades lá do Aragem. Estou banzado: Nunca pensei que isso pudesse ser entendido como dor de cotovelo ou de corno (como se diz por aqui) . Não revelará esta tua observação uma espécie de complexo de superioridade blogoEsférica? 8) Espero que compreendas que nem todos os bloggeres têm o teu engenho para mobilizar as massas e, pela parte que me toca e pelos anos que tenho de blogosfera, já tive tempo para me situar e saber que nem toda a gente nasceu para tocar violino. 😉

      Só para terminar o galhardete, repara que foi o Zé Manel que referenciou o teu blogue. Foi ele que te tratou por Guinote.

      Quanto ao convite para a jantarada, agradeço mas não posso aceitar. Sei que vão estar por lá colegas que muito estimo, outras a quem reconheço qualidade blogoEsférica, mas não dá. Há que gerir o tempo livre com critério… 🙂

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  3. Na minha opinião, a questão que é preciso resolver bem é a da competência e isenção do avaliador. De qualquer modo, se não houver trabalho cooperativo, construtivo e formativo (e isso depende dos professores, na maioria pouco receptivos a isso), não será com as tais aulas assistidas que o professor será bem avaliado, pois é uma treta ter um dia marcado com grande antecedência para o professor recorrer a tudo e a todos a fim de preparar uma aula exemplar que pode nada ter a ver com as que dá habitualmente. Sempre pensei que deveria ser natural colegas passarem pelas aulas uns dos outros. Sou do tempo em que um inspector aparecia à porta da aula sem qualquer aviso prévio. E também do muito tempo em que os meus colegas de grupo adoravam reunir para partilhar e cooperar.
    Quando MLR passou àquele simplex em que a parte pedagógica parecia não interessar, toda a gente contestou. Mas a verdade é que a pedagogia e a relação professor-alunos acontece dentro das quatro paredes da sala de aula e, se ninguém lá pode entrar, não digam que querem avaliação, mas não com modelos do ME. Digam com que modelo querem!
    Quem propõe o que eu não sei e que é como se acaba com aulas chatérrimas (não são casos isolados), com professores que detestam alguns alunos, lhes chamam estúpidos com todas as palavras (não são casos tão excepcionais como se pode pensar), com profesores que não largam o quadro ou a sua cadeira, etc., etc. Não estou a dizer que são a maioria, mas sei que não são uma pequenina minoria.
    Por estranho que pareça, os que melhor distinguem o bom professor, o assim assim e o mau são os alunos, em boa maioria. Sempre lhes pedi a avaliação das aulas e de mim própria nos dias em que lhes pedia a hetero e a autoavaliação, e isso sempre me foi útil.
    Sabes, Miguel? Estou farta desta treta toda: ME, Sócrates, ambientes nas escolas, climas entre professores… O que vale é que há muitos professores excelentes, muito bons e bons. Mas esses tantos que há… não chegam para o que TODOS os alunos precisam.

    Ah… falaste de autonomia. O professor não deve abrir mão da sua autonomia, mas autonomia não tem nada a ver com sala de aula fechada a sete chaves nem com individualismo 😉

    Nota última: tenho que pensar em mudar o nome ao meu blogue. Tens alguma sugestão para me dar?

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  4. Bãoe, atão agora já bus tratais assim?? Deixaibus lá de coisas e bamos ao que interessa. Eue em tempos na minna escola fui chamado á “«atenção»”, quero dizer, alguenhe me disse: oh Jorge tu nas aulas falas muito alto!!! Tens cá uma colocaçãoe de bós… que se oube na sala dos professores…
    Eu cá fiquei todo contente, se me ouvem e digo asneira, alguénhe me há-de ajudare a naum dizer mais asneira. Até hoje.
    Mas descobri outra munto recente, graças à gripe A, agora doue aulas de portas abertas e quem quisere é so entrare…
    Acho que o relatore vai ficar à porta da sala… A bere bamos.

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