Sindicalismo traumático

«Os problemas da educação não se resolvem com o culto de personalidade de um porta-voz a fazer um discurso sindical como que a modos de campanha eleitoral (a uma semana das eleições europeias, que é prelúdio das próximas legislativas) que possa dar votos a um determinado partido ou que possa satisfazer aspirações políticas próprias, citando, ainda, Lafforgue, “fugindo às suas responsabilidades e, consequentemente, escondendo a todo o custo as dimensões do desastre”.»
Seja a que pretexto for, a profissão docente não se pode nem deve esgotar em manifestações de massas em frente de palanques, como o faziam os sindicatos da era industrial que tiveram a sua época. Actualmente, em nome de uma dignidade muito própria, e que a opinião pública justamente lhes reconhece, devem os professores procurar uma representatividade e uma acção que denunciem inequivocamente o forte propósito de estarem ao serviço da sociedade portuguesa e não de interesses de um sindicalismo retrógrado e ultrapassado.» in: De Rerum Natura

Estas afirmações parecem denotar um tipo de preconceito primário, será uma espécie de recalcamento traumático da pós-revolução?, que tenta diabolizar as organizações e os dirigentes associativos que assumem uma ligação ao PCP. Ser militante comunista parece ser o problema. Claro que não é tão grave o facto de João Dias da Silva ser um militante do PSD ou de João Proença ser um militante do PS. Não, o que parece incomodar José Sócrates, muitas vezes, e Rui Baptista, neste texto, é que Mário Nogueira não emerge desse “centrão amigável” às diversas configurações que resultam das alternâncias no poder. Os professores sindicalizados nos sindicatos da FENPROF sabem quem é e de onde vem o Mário Nogueira. E não vem nenhum mal ao mundo que os dirigentes sindicais revelem as suas preferências políticas. A bem da transparência é bom saber o que a casa gasta. Mas para mim chega. Como chegaria se não o soubesse. Como não sei, nem estou interessado em saber, se os seus colegas de direcção são comunistas, socialistas, bloquistas, centristas ou monárquicos; Pouco me importa se as posições da FENPROF dão jeito ao PCP, se a oposição apanha a boleia das acções de luta dos professores, ou se o PS fica incomodado por não ser capaz de controlar a política sindical. O que eu sei é que nenhum professor vai ao engano quando subscreve as tomadas de posição da FENPROF; Que a FENPROF tem sido o motor [que pega, ou não, de empurrão] das lutas dos professores; E que este governo tem procurado fragilizar a acção sindical porque desse modo diminui a resistência dos professores às incursões neoliberais plasmadas nas suas políticas educativas.

Fico satisfeito por saber que Mário Nogueira é um problema para quem defende este primarismo ideológico. É evidente que um Mário Nogueira politicamente inerte abriria espaço para outros arranjos e outras organizações. Mas por favor. Com a imparcialidade [e autoridade] de quem nunca votou PCP, ou CDU [terei receado pela vida das nossas criancinhas? 😉 ], considero este primarismo ideológico, que olha para os professores como umas ovelhas perdidas na ausência do pastor, um insulto à minha inteligência.