Justiça de Fafe e o aluno-actor

Por volta das seis horas, ouvi na TSF uma repórter de rádio local a relatar os incidentes entre um conjunto de manifestantes e ML Rodrigues durante uma vista da ministra para a entrega de diplomas a formandos do Centro de Novas Oportunidades da Escola Profissional de Fafe. O relato da repórter não fazia qualquer referência à presença de professores ou de representantes de professores na referida manifestação.

Já o JN, na sua edição online, refere que “Cerca de três centenas de manifestantes, entre alunos e professores, obrigaram esta tarde a Ministra da Educação a abandonar a cidade de Fafe, sem cumprir o evento que tinha programado.”

No Jornal da SIC, depois de alguns relatos algo estapafúrdicos de alguns adolescentes, ouvi um docente a recordar a célebre justiça de Fafe.

Face ao crescente clima de crispação entre o ME e os professores, ainda mais acentuado após a recente mega manifestação de professores, estou plenamente convencido de que a máquina de propaganda do partido político do governo irá fazer um aproveitamento do momento e retirar daí os dividendos políticos: ou muito me engano ou já estará em curso uma estratégia que visa vitimizar a equipa governativa e a correspondente diabolização dos professores.

Deste episódio emerge uma questão ética que tem que ver com a pretensa manipulação dos alunos pelos professores em conflitos de natureza laboral. Se essa manipulação se concretizasse, o aluno seria tratado como um aluno-objecto. A meu ver, a notícia do JN, que está longe de ser inócua, sublinha a presença de professores entre os manifestantes como que induzindo o leitor a pensar que os professores estariam a “usar” os alunos em acções políticas. Ora, nem sempre o aluno é um aluno-objecto e cada vez mais o aluno é um aluno-actor. E como actores organizados, os alunos podem ter as suas agendas reivindicativas próprias, que são ou não coincidentes com as agendas reivindicativas dos professores. O Estatuto do Aluno é um bom exemplo de como professores e alunos podem confluir na defesa de alterações ao quadro normativo. Não terá sido esse o caso de Fafe mas bem que poderia ter sido. E é caso para citar Perrenoud e dizer que “mesmo quando os pais são servidores dóceis do projecto educativo do Estado, os seus filhos não o entendem necessariamente assim.”

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