Sobre a falácia do mérito profissional

“A verdade é que todos os professores são profissionalmente diferentes; uns melhores que outros, uns mais competentes, mais assíduos, mais responsáveis mais experientes, mais esforçados e mais capazes que outros, independentemente do tempo de serviço. Os melhores merecem ganhar mais e os piores menos!” (Reitor)

“De caminho esquece-se que o termo “mérito” tem significados diversos, de acordo com os “óculos” de quem o pronuncia.” (fjsantos)

A crítica do Reitor à proposta da FENPROF de avaliação do desempenho docente e este texto do fjsantos sobre a armadilha do “mérito”, levaram-me a discorrer sobre a falácia do mérito profissional.

Partindo do princípio, irrefutável, de que todos os sujeitos são diferentes, os sujeitos “professores” serão profissionalmente diferentes. E sendo diferentes podem ser ordenados numa escala de mérito traduzida pelas máximas: “os melhores merecem ganhar mais e os piores menos!” ou os “bons ficam no sistema e os piores merecem sair do sistema”, etc., etc.

Sendo consensual a aceitação do princípio de que “todos os professores são diferentes”, é controversa a definição do quadro de referência para a ordenação do mérito profissional. A definição do quadro de referência utilizado para comparar desempenhos profissionais é, a meu ver, o busílis da questão. Esse quadro de referência dir-nos-á qual o modelo de professor, o professor-tipo, que nos dever servir de referência. Se o quadro de referência contemplar apenas um critério, por exemplo, o tempo de serviço ou tempo de experiência profissional, há um risco elevado de professores mais esforçados perderem o seu lugar na hierarquia do mérito; isto é, sempre que se acrescenta um novo critério, a ordenação dos professores na escala do mérito sofrerá alterações. Quem definir o quadro de referência para comparar desempenhos define o modelo de professor – o professor tipo.

Em Portugal é o governo que decide o professor-tipo, o professor que merece ganhar mais e o que merece ganhar menos, o que merece ficar ou sair do sistema,…

Mas se um governo decide arbitrariamente qual o professor-tipo, ele irá beneficiar um conjunto de professores (cuja formação se enquadra nesse modelo) e penalizar os restantes (cuja formação profissional não se reflecte nesse modelo). Se em cada mudança de governo for suscitada uma mudança do quadro de referência para classificar o mérito dos professores, haverá uma alteração da ordem do mérito.

Ora, como se vê, o problema da “qualidade” dos professores é mais um problema de governação e menos um problema técnico!

4 thoughts on “Sobre a falácia do mérito profissional

  1. “o problema da “qualidade” dos professores é mais um problema de governação e menos um problema técnico!”

    É uma questão política/ideológica, que determina, em grande medida, a forma como nos interelacionamos (todos) em termos de sociedade. É que a Educação, neste momento de alguma confusão, determina quase tudo do nosso devir comum, e os actores sociais são os professores e os seus alunos.

    Quando um governo “entra” na esfera técnica e ética do professorado, como é o caso, há um assalto claro á dinâmica social instalada. Os professores são perseguidos, politicamente. Os (menos) professores, ou adesivos, vingam-se.

    Este dito “modelo de avaliação” é um “modelo de perseguição política aos melhores professores”, os incómodos do sistemas. Purga.

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  2. Mérito? Excelência?

    Pelos padrões desta avaliação, estive em escolas onde era excelente (não tinha insucesso). Na escola onde estou sou péssima! Tenho insucesso!

    Excerto de um escrito a propósito de um outro (ou será que não passa do mesmo) tema (o concurso para o brasão):

    E as “coisas” transferidas para o papel não valorizam, não relatam, não mostram o que fizemos, não estão lá as emoções que sentimos ou fizemos sentir, não estão lá os olhos dos putos que brilharam com aquela acção desenvolvida na escola, não estão lá os risos que provocámos com a outra acção, não está lá a lágrima daquele outro que nunca tinha sido bom em nada e nós fizemos “o milagre” de lhe conseguir dar um qualquer prémio para ele perceber que também podia ser bom.

    http://professorsemquadro.blogspot.com/2006/11/resposta-castigos-avaliaes-e-invenes.html

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