Um modelo incoerente só pode ter um destino: o caixote do lixo.

O Ramiro considera que a principal crítica ao actual modelo de avaliação de desempenho é o facto de ser um modelo que impõe uma avaliação entre pares. É essa avaliação entre pares que o torna injusto, parcial e burocrático.

Passemos então à controvérsia:
Observemos o modelo de avaliação do desempenho em busca do seu quadro de referência. O que vemos? Vemos um modelo híbrido:
• Centrado no perfil do professor onde se avalia o desempenho de acordo com o grau de concordância aferido em relação a características de um perfil previamente determinado. Definido o professor ideal é necessário perceber quão distante se encontra o professor situado.
• Centrado nos resultados escolares que transforma o professor em responsável principal dos resultados obtidos pelos alunos.
• Centrado na prática reflexiva assumidamente formativa do professor.
Ora, o problema principal deste modelo que nos foi imposto pelo Ministério da Educação é a tensão gerada por concepções de avaliação conflituantes. Por um lado, o professor é encarado como um operário acrítico que se deve limitar a executar as ordens emanadas das chefias; por outro, exige-se do professor uma elevada capacidade reflexiva que, paradoxalmente, o leva a questionar permanentemente o sentido das ordens superiores. É esta perspectiva funcionalista da função docente, funcionalista porque se limita a uma verificação burocrática de que o professor cumpriu os pré-requisitos constantes no seu perfil funcional, que me leva a afirmar que se trata de um modelo redutor que não é capaz de captar informação significativa gerada no acto educativo – afinal, a essência da função educativa.

O problema do modelo não se encontra na co-avaliação ou na participação dos pares na avaliação do desempenho. O principal problema deste modelo é o rol de incoerências que decorrem das características do próprio modelo [híbrido].

Não é a avaliação entre pares que torna o modelo injusto, parcial e burocrático. Se a avaliação fosse realizada por outrem seria igualmente um modelo injusto [porque exige que o professor assuma a responsabilidade pelos resultados obtidos pelos alunos], parcial [porque não capta a essência do acto educativo] e burocrático [porque transforma o professor num manga-de-alpaca].
A solução para o problema não é dispensar os pares da avaliação. A solução para o problema é optar por um modelo que seja coerente. E de preferência que esse modelo fique centrado, exclusivamente, na prática reflexiva. Esse é o meu modelo!

A segunda questão que se coloca é a simplificação do processo como forma de garantir a sobrevivência profissional. Sobre esse assunto não quero ser redundante e por isso remeto a discussão para o Aragem.

8 thoughts on “Um modelo incoerente só pode ter um destino: o caixote do lixo.

  1. Boa argumentação. Mas ineficaz. A minha proposta é diferente: a avaliação de desempenho dos professores deve ser integrada no processo de avaliação externa da escola, deve realizar-se apenas de 4 em 4 anos; deve centrar-se na avaliação dos conteúdos funcionais prévios ao ensino, de realização do ensino e de avaliação dos alunos. Por mais reflexivo que o modelo seja, colocar colegas a atribuir uma classificação a colegas criará sempre mau ambiente nas escolas, injustiças e parcialidades. Além de lançar mais burocracia sobre os ombros dos professores.

    Gostar

  2. “Deve centrar-se na avaliação dos conteúdos funcionais prévios ao ensino, de realização do ensino e de avaliação dos aluno.”

    ou

    “E de preferência que esse modelo fique centrado, exclusivamente, na prática reflexiva”

    Ou seja, subscrevo as duas e nem consigo ver a discordância 🙂 🙂

    Abraço do Paulo Prudêncio.

    Gostar

  3. “E de preferência que esse modelo fique centrado, exclusivamente, na prática reflexiva”

    De facto, só pela reflexão´de um professor se pode conferir credibilidade a uma avaliação de desempenho profissional docente. Pode assmir vários formatos.

    Quanto á questão da avaliação ser por pares em face de uma classificação muito diferenciada como a que está plasmada neste momento no ECD a única a solução passa sempre por ter que existir (alguma) credibilização independente . Pelo que a solução em vigor até agora de uma comissão de pares do Conselho Pedagógico das escolas, com a chancela do órgão de gestão e director regional parece já não ser viável em face da introdução deste período de distorção e alta perturbação no seio das escolas que introduziu muitas sequelas e desconfianças.
    Desconheço em pormenor os modelos propostos pelo Ramiro M. e pelo Paulo Guinote.
    Na devida altura o farei para dar o meu contributo também e eventualmente a fazer algumas sínteses.

    A figura de “titular” é uma daquelas aberrações organizacionais inqualificáveis ainda por cima com uma ministra que se diz expert da área de organização do trabalho . No primeiro trabalho da primeira cadeira da licenciatura na área, na minha faculdade , seria de imediato chumbada e eventualmente “convidada” a ir fazer outra coisa na vida … Afinal é doutorada! Céus. Algo de muito errado se passa pelo ISCTE. Muito errado.

    Gostar

  4. Disse … só pela reflexão´de um professor se pode conferir credibilidade a uma avaliação de desempenho profissional docente …
    Digamos que um professor reflecte sobre o seu trabalho lectivo. E é a partir dessa reflexão que se infere … Claro que é necessário uma muito bem esclarecida definição do conteúdo funcional do professor (o que está contratualizado). Neste momento o artº 35 do actual ECD é uma aberração a nível do descritivo funcional e sem esta matéria revista não há sustentabilidade para qualquer tipo de modelo dito de desempenho profissional.

    Aliás o cerne do problema está justamente aí. E é justamente pelo artº 35 que toda a dita actual política (des)educativa vai pelo esgoto.
    Não posso explicar publicamente a(s) razões.
    Não se pode dar “pérolas a porcos” …

    Gostar

  5. Gostaria muito que os professores conseguissem bloquear esta avaliação e a conseguissem mandar para “o caixote do lixo”. Dizendo não: não a aplicando; sendo capazes de apresentar uma outra que fosse amplamente debatida e se conseguisse chegar a um consenso mínimo;e por fim sendo capazes de obrigar o poder político a discuti-la nessa base. Sei que isso é extremamente difícil de conseguir pois exigiria um grau de consciência política e profissional que não vejo assim tão espalhado pela “classe docente”. Mas essa era e é uma das funções dos sindicatos e mais propriamente da Fenprof a quem eu reconheço representatividade e seriedade para com os professores. Isto é um desejo. Mas é um desejo pelo qual vale a pena lutar. Entretanto, é preciso ir fazendo outras pequenas coisas e partir pedra. E é o que vejo fazer e com muito interesse aqui no teu e nos outros blogues.

    Gostar

  6. Reunião da APEDE dia 11 de Outubro.
    Vejam um artigo de José Gil na Visão, reproduzido no site do movimento “mobilizaçãoeunidadedosprofesso

    Gostar

  7. Sem entrar em discussão parece-me a mim que o que o Ramiro ‘defende’ e se ‘revolta’ é muito mais abrangente do que um ” modelo de avaliação de desempenho … que impõe uma avaliação entre pares”.

    Já tinha lido algo num blogue, um ‘lamiré’ ao qual não atentei mas … começo a achar que há por aqui ou num espaço mais alargado alguns galos com necessidade de poleiro. Em jeito de político. Sigam e deixem os professores em paz porque nos blogues não vivemos o parlamento.

    Desculpem qquer coisinha …

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s