800 cooontos? ou 40 por cento?…

Por momentos fui transportado para a história do Vasco Santana (para os mais novatos o homem foi um fantástico actor do velho cinema português) naquela cena em que o alfaiate (António Silva) fazia as contas à fortuna das tias durante uma prova, nas costas de um cliente. A ideia da fortuna fácil pairava na mente do alfaiate como a ideia de sucesso sem esforço paira no imaginário de muitos políticos.

“… e a prova? A prova (dos nove) faz-se já aqui ao lado!”

E a prova às notas dos alunos no exame de Matemática?

O Oportunismo

“O oportunismo é, porventura, a mais poderosa de todas as tentações; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solução é levado a querer realizá-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais rígidas regras de moral; e a gravidade do perigo é tanto maior quanto é certo que se não é movido por um lado inferior do espírito, mas quase sempre pelo amor das grandes ideias, pela generosidade, pelo desejo de um grupo humano mais culto e mais feliz. Por outra parte, é muito difícil lutar contra uma tendência que anda inerente ao homem, à sua pequenez, à sua fragilidade ante o universo e que rompe através dos raciocínios mais fortes e das almas mais bem apetrechadas: não damos ao futuro toda a extensão que ele realmente comporta, supomos que o progresso se detém amanhã e que é neste mesmo momento, embora transigindo, embora feridos de incoerência, que temos de lançar o grão à terra e de puxar o caule verde para que a planta se erga mais depressa.

Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava, embora sob a forma de vago desejo, no espírito do povo; a criação do estado de alma aparece-nos assim como bem mais importante do que o articular dos decretos; e essa disposição não a consegue o oportunismo por mais elevadas e limpas que sejam as suas intenções: vincam-na e profundam-na os exemplos de resistência moral, a perfeita recusa de se render ao momento. Depois, tempo virá na Humanidade – para isso trabalham os melhores – em que só hão-de brilhar os puros valores morais, em que todos se voltarão para os que não quiseram vencer, para os que sempre estacaram ante o meio que lhes pareceu menos lícito; eis a hora dos grandes; para ela desejaríamos que se guardassem, isentos de qualquer mancha de tempo, os que mais admiramos pela sua inteligência, pela sua compreensão do que é ser homem, os que mais destinados estavam a não se apresentarem diminuídos aos olhos do futuro.
Agostinho da Silva, in ‘Textos e Ensaios Filosóficos’

Exames

Faço minhas as dúvidas do Paulo:

“São coisas difíceis de entender.

Mas para que é que servem, realmente, os exames?

Se confiamos no professor para leccionar as aulas durante o ano inteiro, porque é que no fim havemos de duvidar da classificação que atribui aos alunos?

Se o professor é mau e pode estragar os alunos, no fim o mal já está feito, com ou sem exame. Mas os alunos, que já não basta terem gramado com o mau professor, ainda têm de fazer exame para duplicar a sua azarada condição.

Se o professor é bom, bastava o processo das aulas, uma vez que os resultados dos exames nunca diferem muito da nota do professor e podem, quando muito, tramar os alunos que tiveram um dia mau.

Se o professor é assim-assim, acontece um bocado das duas coisas e estamos, por isso, conversados.

Então? Por que raio é que há exames?

Para aferir conhecimentos?

Bem, isso seriam provas de aferição e poderiam ser feitas, por amostra, e em qualquer altura.

Para os alunos estudarem mais?

Não, por aí também não podemos ir. A avaliação contínua assenta em vários exames realizados ao longo do ano lectivo. Mal do país que tem de pensar assim: ensinar, estudar e aprender tem de valer um bom bocado mais do que isso. E cada escola pode ser avaliada pela exigência e pelo rigor que coloca no seu ensino sem os exames. É mesmo decisivo que seja assim, parece-me.

Para estudos internacionais?

Bem, isso, e salvo melhor opinião, serve para alimentar tecnocratas que estão a milhas, a quilómetros, das escolas, mas têm de fazer os seu estudos. Não, para isso também não servem. Aceita-se uns testes por amostra, de quando em vez, para que o desemprego não seja praga também aí.

Para hierarquizar as escolas?

Não, já se viu que não. As escolas são, felizmente, muito mais do que examinar os saberes numa ou em duas disciplinas: e nisso, no muitíssimo mais que os exames, nem se auto-avaliam nem são avaliadas externamente; por sistema e com rigor.

Para hierarquizar os alunos na entrada para a universidade?

Claro, aí tem que ser. Mas não tem nada que ser. Já pensou nisso meu caro leitor? Há sítios em que no final do secundário a escola diz se o aluno está apto ou não e depois as universidades escolhem quem lá se matricula. Tão simples como isso.

Serão, portanto, os exames tão necessários assim?

Parece que não. O problema é outro e bem mais profundo: somos uma sociedade desconfiada e em que os média promovem um verdadeiro caldo de “conversa da treta”. E isso mina tudo: as relações entre as pessoas e a selecção dos melhores caminhos para construir o futuro.

Já por lá andámos e saímos: não tarda voltaremos. De outro modo, é seguro, já que as aprendizagens (processo demasiado desconhecido) individualizadas associadas às vantagens da ciência assim o exigirão. A escola da má burocracia morrerá aos poucos e muito lentamente, mas morrerá. As fábricas de ensino não sobreviverão. Na pior das hipóteses, os ricos pagarão a frequência dos novos módulos de ensino e os pobres arrastar-se-ão, com um controle férreo e burocrático, nas antigas unidades fabris em versão piorada: mais baratas e mas desqualificadas” (in: Correntes)

Adenda surreal: Negativas na prova de Matemática do nono ano caem quase 40 por cento num ano.
Beeemm… já parei de rir.