Futebol, outròólhar… da antropologia

“A comunidade Santo Atanásio está distante 1.350 km de Manaus, estando mais próxima da cidade de Iauaretê. Lá é o reduto dos índios Peoná, uma vertente étnica dos Maku, que tem no futebol sua expressão lúdico-ritual.
O futebol e uma modalidade esportiva praticada pela maioria dos brasileiros. Os índios da região do alto Rio Negro não são excepção. No entanto, o jogo praticado entre determinadas culturas revela dados sociais importantes para uma observação apurada. O que dizer de um time de futebol sem número determinado de jogadores que, quando enfrenta um convidado de outra comunidade sempre perde a partida? O que dizer do time que, quando joga entre os membros da mesma comunidade, o resultado é literalmente uma igualdade?
Parece estranho que haja jogos de futebol com essas características, pois estamos acostumados a ver sempre um resultado numa disputa acirrada, mesmo que o jogo tenha aspectos somente recreativos ou de reunião de amigos para um encontro formal.
Numa primeira vista, o jogo de futebol dessa família indígena parece não ter nada da arte que vemos nos jogos da selecção brasileira ou mesmo da malícia encontrada nas peladas de fim-de-semana. Como os índios Peoná vivem na lógica da selva, atendendo suas imposições, acostumados a viver nas dificuldades naturais, tendo liberdade de acção e obedecendo literalmente a função mitológica que lhes cumprem, é comum brincarem sempre com objectivo de re-criar seu mundo. Para nós, a função do lúdico encontrada no jogo é algo muito além do que o simples ato mecânico de chutar uma bola ou festejar um gol.” (pp. 261-262)

Jefferson Jurema e Rui Garcia (2002). Amazônia – Entre o esporte e a cultura. Editora Valer. Manaus.

(Continua…)