Os valores ou a falta deles?…

As lutas pelo poder nas escolas adoptam configurações muito diversas. Não estou a pensar nas lutas pelo poder legítimo, sufragado pelo acto eleitoral. Estou a pensar nas estratégias utilizadas por vários actores tendo em vista a manutenção dos seus interesses e a conquista de uma posição privilegiada que lhes permita manter o estado da situação. A divisão da carreira e as novas dinâmicas geradas pela preparação do processo de avaliação do desempenho docente vieram ressuscitar estas lutas pelo poder.
Ramiro Marques tem divulgado alguns casos, algumas evidências que nos obrigam a reflectir seriamente sobre o sentido que queremos dar à nossa profissionalidade:

“O ambiente das escolas alterou-se. Nuns casos, há guerra aberta. Professores titulares contra professores, PCE contra professores titulares, perseguições por delito de opinião e sessões de auto-crítica, em reuniões do CP, à boa maneira estalinista e maoísta.
Exemplo disso, é um email que eu recebi de um PCE (não o identifico nem à escola!) a exigir que eu revelasse o nome da professora que me enviou as fichas de avaliação. Ao que isto chegou!
Noutros casos, é o beija-mão: professores a darem graxa aos avaliadores. Lamentável! É isto aquilo que chamam a avaliação entre pares!”

Entramos no domínio mais perverso da escola. Aquele em que se refugia o corporativismo bacoco. E o enquadramento deste fenómeno deverá ser feito a partir de um quadro de referência onde se inverte a lógica de serviço – afinal, quem serve quem?
Por conveniência semântica rotulei os actores instigadores: são os acólitos. São eles que procuram assegurar a manutenção do statu quo. Há várias versões de acólitos mas a ideologia é a mesma: Camuflar eventuais “rabos-de-palha”; jurar vassalagem e, como moeda de troca, reclamar a eternização das benesses. É a cultura da cunha.
Os acólitos não desejam equidade, prescindem da liberdade intelectual e receiam a perda de confiança do poder que ajudaram a conquistar. Alguns “desaparecem” quando são desmascarados. Não acreditam na cultura de colaboração, desconfiam da inovação e da mudança. Através de um pacto de regime, silencioso, poucas vezes declarado, o clube dos acólitos congrega vários tipos, docentes e não docentes. Alguns são fundamentais na gestão dos conflitos internos nas escolas; amortecem as críticas firmadas; impulsionam a intriga para tomar o pulso da contestação.

Sem pretender revelar todo o cardápio, é possível definir vários tipos de acólitos (porventura agregados numa oligarquia):
  • Os irritados criticam as pequenas falhas de organização, são intolerantes com os alunos e colegas, principalmente, com os mais novos. Crêem na sua coragem consubstanciada numa crítica ligeira, disfarçada, que ninguém leva a sério;
  • Os trabalhadores andam sempre atarefados, azedos e nunca erram. Isto é, raramente assumem o erro, o engano, o descuido, a falha. São os super-profissionais;
  • Os calados não têm opinião, apresentam-se descomprometidos com a escola. São insuspeitos, são os desejados porque não “complicam”. São os ouvidos que as paredes escondem;
  • Os estrategas preocupam-se com o clima da escola e com as pessoas, mas o que realmente lhes interessa é a conjuntura. Se pressentem sinais de um eventual contra-poder tornam-se visíveis, actuam concertadamente e, com muita facilidade, mobilizam um batalhão de fiéis. São implacáveis na retaliação;
  • Os anónimos diferem dos calados porque não têm a capacidade de discernir o seu grau de influência. Fazem qualquer coisa para agradar ao poder instalado e anseiam subir na escala de influência.
Raramente os acólitos aparecem no seu estado puro. São híbridos e multifacetados. São pessoas que procuram a sua transcendência. É uma lástima que este tipo de superação suscite uma profissionalidade desprovida de sentido.

Urge retomar a discussão sobre os valores na Escola!

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