O debate público e a mordaça

Não sei se procurei o desporto colectivo por apreciar o trabalho em grupo ou se comecei a gostar de trabalhar em grupo pelo facto de ter iniciado a minha formação desportiva em jogos de equipa. Provavelmente, as duas premissas acabaram por se robustecer mutuamente e acabei por sair ainda mais beneficiado.
Esta nota prévia serve apenas para dizer que me assumo como um colectivista, ambicionando que o TODO possa ser, deva ser, maior que a soma das partes que o constitui. Sempre procurei associar-me a ideias, projectos, esforços e interesses. Sempre procurei associar-me a causas embora não tenha qualquer pejo em desvincular-me de uma organização quando percebo que essa motivação profunda desapareceu.
Foi com este propósito que me sindicalizei no primeiro dia em que me senti professor. Foi com o mesmo propósito que me filiei numa associação de professores e com a mesma facilidade me desvinculei por considerar que os propósitos básicos da organização estavam a ser pervertidos.

Além de razões pessoais de teor afectivo, penso que as organizações de classe são pilares fundamentais nas relações laborais. Sempre me insurgi contra a tentativa do ME em substituir do palco negocial, unilateralmente, os sindicatos [representantes legítimos dos professores] pelo conselho de escolas, um órgão arrancado a ferros por normativo. Não quero com isto dizer que não haja espaço para outras organizações. Quero dizer que a perda de protagonismo dos sindicatos no espaço negocial é a perda de poder negocial dos professores. O cenário que está a ser construído configura uma espécie de baldio negocial em que se faz-de-conta que há negociação. Nenhum professor ficará a ganhar com este cenário. Os direitos adquiridos esvair-se-ão conforme as conveniências da tutela.
Não deixa de ser paradoxal o surgimento de iniciativas avulsas e atomizadas que, embora expressem os interesses legítimos dos seus subscritores, acabam por contribuir para afastar ainda mais os professores do “diálogo” com o ME. O ME agradece esse contributo e criará, eventualmente, melhores condições para que outras iniciativas proliferem: “é dividir para reinar”.

Este é o tempo para agirmos defensivamente. Este é o tempo para agirmos colectivamente. Este é o tempo para darmos força às únicas estruturas independentes do ME que podem lutar pelos interesses dos professores – os sindicatos. Conheço um rol de críticas dirigidas ao movimento sindical [ele próprio diverso e muitas vezes disperso] algumas das quais pertinentes e justas. Também é verdade que o movimento sindical é um enorme guarda-chuva onde se abrigam interesses perversos e oportunistas. É necessário peneirar e separar o trigo do joio. Cabe-nos escolher aquele que melhor representa os interesses de um colectivo diverso e disfuncional, como é a nossa classe.

Este é o tempo da sindicalização!