Políticos de algibeira e reformas inacabadas…

Há já algum tempo que acompanho, com algum distanciamento mas com muito interesse, o fórum de discussão promovido pelo Grupo de Avaliação e Acompanhamento da Implementação da Reforma do Ensino Secundário (GAAIRES). Creio que a minha fugaz participação deixou rasto no fórum e, por esse motivo, recebo na caixa de correio os registos diários de alunos, pais e professores.
Hoje encontrei um testemunho que, por ser tão óbvio e acertado, merece o meu destaque:

Carlos Cunha – segunda-feira, 9 Julho 2007, 22:29

Tenho acompanhado atentamente os desabafos de Colegas / Pais, sobre os exames nacionais, sobre os novos programas, sobre as alterações em geral. É um assunto complexo que merece distanciamento e bom senso (que não sei se tenho). Portugal tem acumulado sucessivos atrasos e reveses na sua prestação em testes internacionais de aferição (veja-se os PISA). Era urgente, era inquestionável a necessidade de mudança.
O problema é que neste País, os políticos são de algibeira, tão preocupados com o seu partido, que esquecem o País que servem, normalmente com assessores nomeados por proximidade política e não por distinção científica. Isto tem tido consequências terríveis a todos os níveis, mas na Educação é “mortal”. Teria sido necessário um acordo supra-político para a Educação (Holanda, Bélgica, Irlanda), que não faz depender os seus paradigmas do vento partidário, mas dos objectivos definidos para o País. Em vez disso, o PS estrutura uma reforma, o PSD altera-a na sua génese e o PS está a aplicá-la a contra-gosto, alterando o que pode e como pode. Resultado: uma manta de retalhos que tem uma origem interessante mas a aplicação que se vê: programas que entram antes dos currículos, alunos “entalados” que não são 286 nem 74, jovens desmotivados, professores confusos, pais desiludidos, uma geração com muitas dúvidas sobre o seu futuro. O próprio Ministério da Educação parece um corpo de bombeiros: ainda não apagou um fogo completamente, e já outro começou numa outra frente.
Penso que seria altura de fazer um verdadeiro balanço sobre os estado da Educação, sem pensamentos rosa, laranja, vermelho ou outros. O atraso em relação à Irlanda devia deixar-nos a todos vermelhos… de vergonha.
Só depois, estes desabafos poderão ter o verdadeiro efeito, e a reforma terá verdadeiros resultados no futuro da Educação deste País. Só então os professores poderão ser verdadeiramente motivados a aplicar as metodologias que estes novos programas exigem, largando os “exercícios”, e desenvolvendo nos alunos verdadeira capacidade de raciocínio, permitindo-lhe resolver os problemas que lhe são apresentados. Só então os Exames Nacionais avaliarão aquilo que os programas pretendem desenvolver, e não questões de memorização mesquinha, sem nexo e sem objectivo. Só então o ensino experimental fará sentido. Só assim se conseguirá o apoio dos pais e dos alunos que passarão a ver o objectivo do seu esforço.
Consultem-se alguns exemplos:
http://www.gcse-science.com/teachers_subpage.php?cat_id=183
http://www.iop.org/activity/education/Teacher_Support/Teachers_Network/page_2574.html
por exemplo.
Perdoem-me o desabafo e o “ácido” destilado no mesmo.”

Carlos, por mim, estás perdoado! 🙂