Incursão ao economês…

“Cada ano de escolaridade obrigatória adquirido pelos portugueses significa para o país, anualmente, mais 700 milhões de euros”. Estes números foram, ontem, avançados pelo presidente da República, Cavaco Silva, numa visita efectuada ao Centro de Formação Profissional da Indústria de Cortiça (Cincork), em Lamas, Santa Maria da Feira.”

Eu já o admiti: Não sou especialista em “economês” e, talvez por isso mesmo, não posso deixar de ficar espantado com a capacidade de alguns economistas em capitalizar diplomas académicos.
Se se verifica essa linearidade nos ganhos financeiros em virtude do aumento da escolaridade obrigatória, o alargamento à licenciatura (bolonhesa) significa para o país, anualmente, 4200 milhões de euros. E, como provam as minhas contas de merceeiro, se continuarmos até ao mestrado, chegaremos aos 5600 milhões de euros anuais.
E se houver problemas com o sucesso escolar dos alunos, há que promover transições de ano administrativas…
O país não pode esperar, e eu também não [é que estou farto de congelamentos de carreiras e de vencimentos].

Seria paradoxal que um docente estivesse interessado em desconsiderar as teses da qualificação, da educação, da formação [inicial ou contínua]. Não é disso que se trata, obviamente. Trata-se apenas de assinalar o modo ligeiro com que se anunciam ganhos na economia sem disponibilizar os estudos que suportam essas afirmações.
Atendendo à fraca credibilidade dos economistas da nossa praça, que deviam ver reflectidos nos seus salários os resultados das suas projecções, todos nós percebemos que já não basta agitar a bandeira dos ganhos económicos para legitimar políticas enviesadas. É preciso provar: é preciso fazer prova [e isto não é demagogia] de que mais escolaridade significa um maior ganho. Os desempregados licenciados aguardam pela demonstração…

Adenda:

E se a melhoria da empregabilidade dos jovens escondesse novas formas de desigualdade social?
Natália Alves
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa

“O termo empregabilidade tem vindo a impor-se como uma categoria universal de análise do mercado de trabalho, como um referente hegemónico das políticas de emprego e, mais recentemente, das políticas educativas. A sua introdução nos discursos educativos oficiais corresponde a uma alteração no paradigma por que se têm orientado as políticas sociais e inscreve-se numa lógica de individualização e responsabilização individual e na tendência crescente para a privatização dos problemas sociais. Mas a empregabilidade legitima, também, o reforço das fileiras profissionalizantes destinadas a todos e de medidas específicas destinadas a alguns: aos jovens das classes populares, com trajectórias escolares de insucesso e em risco de abandono escolar. Neste artigo, pretendemos demonstrar que, em Portugal, a profissionalização do sistema educativo é o resultado de uma política voluntarista do Estado que não encontra eco num tecido empresarial que continua a apostar nos baixos custos da mão-de-obra como factor de competitividade ao mesmo tempo que relega para um plano secundário a discussão do seu papel na (re)produção social e na criação de formas “doces” de exclusão.” [ler aqui…]