A blogosfera como práxis reflexiva II

A Isabel tece três afirmações, acertadas, no seu comentário à minha crónica “blogoEsférica”:

  1. A blogosfera está longe de captar o interesse da maioria dos docentes e muitos deles ainda “franzem o sobrolho” quando ouvem falar no assunto;
  2. Há um risco de a blogosfera “docente” dar uma imagem até encorajante e optimista do interesse dos professores no debate de ideias;
  3. É preciso combater a falta de espaço nos órgãos das escolas para a troca e debate de ideias e experiências.

Antes de me centrar nas observações da Isabel, olho para a formação de professores através da lente de Manuel F. Patrício. É uma síntese que reflecte um determinado modo de olhar a formação de professores, que é corroborada pela minha reflexão pessoal fundamentada na actividade docente. Atente-se ao quadro seguinte que emerge de uma análise histórica, culturalmente situada [que já evocara aqui ao ser embalado por uma outra discussão]:

  • Os defensores da perspectiva puramente científica pensam que na formação do professor a única coisa que importa é preparar estritamente no âmbito das matérias que o professor vai ensinar. Só interessa “o que” se ensina. É uma posição radical, sem dúvida, embora profundamente conservadora.
  • A perspectiva científica-didáctica encontra mais defensores entre os docentes. Deve ser competente nas matérias da especialidade da sua docência e receber uma formação didáctica mínima que o habilite para leccionar ao nível da turma. Pretende-se um professor ajustado à concepção da escola estritamente curricular. É uma perspectiva puramente metodológica, em que os conteúdos são o fim e os métodos os meios.
  • A perspectiva científica-pedagógica encara o professor não apenas como agente de ensino de matérias específicas, mas como agente educativo global, ordenando todo o seu ensino para o desenvolvimento da personalidade dos educados a seu cargo. Este professor não reduz o âmbito da sua acção educativa à turma mas alarga-a a toda a instituição escolar.
  • A perspectiva cultural é solidária com o paradigma da escola cultural. Este professor é um agente de ensino que estende a sua acção à turma, à escola e à comunidade educativa. É uma perspectiva situada, enraizada no solo, como refere Patrício. É a que não separa o aprender escolar do aprender vital, a escolaridade da vida.

Será substancialmente diferente o teor da reflexão produzida por cada um dos vários actores (professores) que resultam das várias perspectivas enunciadas?
Dito de outro modo, podemos inferir que a reflexão de um professor enformado por uma perspectiva puramente científica será orientada preferencialmente para a natureza do que se vai ensinar, enquanto que a reflexão de um professor enformado por uma perspectiva cultural alarga o espectro da reflexão à acção na turma, na escola e na comunidade educativa?

Não se defende aqui que a formação do pensamento e da acção do professor decorre, única e exclusivamente, da formação inicial. A formação do pensamento do professor começa muito cedo, enquanto aluno do básico e secundário, e não acaba nos bancos da universidade. Ela prossegue ao longo da vida profissional e sofre inúmeras metamorfoses. O que se pretende enfatizar [esta simplificação da realidade admite variações e osmose de perspectivas] é que há um padrão, uma característica formadora do que é SER professor, no imaginário colectivo docente: Ser professor é, para os docentes, ser professor reflexivo, independentemente dos matizes que sugerem as diversas perspectivas formadoras.
Todavia, os administradores pensam e agem de modo diferente: um professor é um “operário”, acrítico, preferencialmente, para não discutir e obstruir a implementação das políticas educativas. Só assim se compreende que a administração coloque inúmeros obstáculos no acesso à cultura, à participação associativa e ao enriquecimento profissional dos docentes.

Regressando ao comentários da Isabel. É verdade que alguns docentes ainda franzem o sobrolho quando se agita a bandeira da blogosfera? De facto, alguns professores sentem uma certa aversão a tudo o que é cibernético. Mas, isso não significa que os professores não reflectem as práticas e a profissionalidade; Significa, a meu ver, que os docentes ainda não incorporaram, nas suas rotinas, as novas tecnologias [atente-se, por exemplo, à dificuldade de implementação da plataforma Moodle]; Significa que os docentes não reconhecem valor profiláctico na blogosfera; Significa uma atitude defensiva que procura reduzir a dependência do escolar na vida pessoal…

Isto conduz-me à segunda interrogação: Haverá algum risco de a blogosfera “docente” dar uma imagem até encorajante e optimista do interesse dos professores no debate de ideias?
Será que a Isabel se refere ao risco de a blogosfera docente disfarçar o desânimo que se sente na atmosfera escolar? Aqui não existe qualquer risco, digo eu: A blogosfera espelha o ambiente escolar. O que é para mim uma lástima é que os responsáveis políticos vivam alienados pela propaganda e desvalorizem os sinais que são reflectidos pela blogosfera que dão conta da iniquidade das políticas educativas.
Ou será que a Isabel se refere ao risco de a blogosfera docente camuflar uma pretensa actividade reflexiva? Não me parece pelas razões apontadas mais atrás. O docente é, deve ser, reflexivo por natureza. Há excepções? Claro que há. Seria uma catástrofe se o professor perdesse esta qualidade!

Finalmente, é preciso combater a falta de espaço nos órgãos das escolas para a troca e debate de ideias e experiências? Por tudo o que disse, é evidente que há que procurar ganhar espaço e… tempo. Como?
Aceito sugestões…

[Uffa… que grande lençol… é no que dá esta coisa do desafio, Isabel… ;)]

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