A blogosfera como práxis reflexiva

Crónica

Na primeira crónica, que intitulei de profilaxia, sugeri algumas soluções para lidar com os sentimentos de culpa que decorrem do acréscimo de trabalho docente. Na segunda crónica, reflecti sobre a pertença da escola e procurei “aliviá-la” de um apêndice, a meu ver, nocivo – a formação profissional, partindo do pressuposto de que a escola tem um excesso de missões. Hoje, vou recuperar a linha profiláctica e sugerir um instrumento de participação, um elemento de práxis reflexiva: o blogue(1) docente.

Permitam-me que fale na primeira pessoa deste instrumento que usei pela primeira vez em Dezembro de 2003 e que me tem ajudado a crescer profissionalmente. Presumo que a minha entrada na blogosfera [uma comunidade de blogues] terá sido motivada: por um temperamento agonístico; pelo prazer da discussão; pela necessidade de afiliação; pela atracção por teias de conhecimento. Terá sido por razões estruturais, como as que referi, mas também por razões circunstanciais: a tomada de consciência, dolorosa, de que a escola “situada” fora “assaltada” por uma panóplia de procedimentos técnico-burocráticos; a constatação de que os locais de eleição para a discussão e reflexão sobre a política e práticas educativas [conselho pedagógico, conselho de docentes e assembleia de escola] foram transformados em correias de transmissão de normas e orientações superiores.

Ao entrar na blogosfera encontrei uma comunidade docente irrequieta e participativa, o que me agradou profundamente. A blogosfera é uma espécie de mosaico fluido com vários padrões de participação: há quem a procure como instrumento de apoio às actividades lectivas e não lectivas; há quem a utilize como fórum temático de discussão; há quem a considere uma fonte de directórios informativos, etc. Os blogues docentes, individuais ou colectivos, podem, de facto, ampliar as salas de professores a uma escala transnacional.

Não cairei no logro de pensar que a participação cibernética é congruente com a prática de ensino. Não se trata de considerar que há uma relação directa entre o pensamento e a acção porque, de facto, alguns processos de pensamento estão longe de manifestar congruência com a acção. Mas, o que interessa enfatizar com este desafio [porque é de um desafio que se trata] é que a blogosfera docente se possa afirmar como um recurso profilático se usada no combate ao isolamento e à solidão e suscite o desenvolvimento de uma atitude colaborativa ao estabelecer pontes de partilha e confronto de saberes.

Numa época marcada pelo reforço de medidas administrativas que oprimem e degradam as condições de trabalho, não será o cuidado profiláctico uma competência docente extremamente valiosa, quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto vista do equilíbrio do sistema educativo?

(1) “Um weblog, blog ou blogue é uma página da web cujas actualizações (chamadas posts) são organizadas cronologicamente de forma inversa (como um histórico ou diário).” [Wikipédia]