Penduras

O presidente da câmara de Santo Tirso, na sua breve aparição num canal televisivo após a assinatura do protocolo de colaboração com o governo a respeito do encerramento da urgência hospitalar, não perdeu a oportunidade para retirar dividendos políticos. Extasiado pelo facto de ser um dos raros eleitos do governo para se sentar à mesa das negociações, o autarca justificou o pretenso êxito com o facto de se ter mantido em silêncio, enquanto os outros autarcas protestavam; de preferir a negociação à manifestação. Como se uma e outra coisa fossem incompatíveis; como se a manifestação fosse um direito a abolir porque incomoda quem governa; como se o silêncio, apenas o silêncio dos inocentes, fosse ouvido no céu.

Duas ideias emergem desta intervenção:

  • A ideia subliminar contida neste tipo de discursos, que nos fazem lembrar o período do Estado Novo e a apologia da submissão e da subserviência, é um cancro para a democracia. Ninguém ousa negar o direito à indignação mas começa a ser demasiado evidente que os partidos políticos, sem excepção, lidam mal com a contestação. O que não deixa de ser paradoxal.
  • A ideia de que vale a pena adoptar um estilo “pendura” porque é menos arriscado politicamente [não existindo qualquer comprometimento com uma decisão favorável ou desfavorável não há perdas] e permite ir a reboque dos ganhos colectivos.

Deploravelmente, é este estilo pendura que tem feito escola na escola.
Vejo este estilo, nos docentes críticos da pretensa inacção sindical que se recusam [legitimamente] aderir ao movimento; vejo este estilo, nos docentes que insistem nos apelos à intervenção de forças exteriores à escola [procurando apoios nas elites…] demitindo-se da participação política no interior da escola; vejo este estilo, nos docentes que se lastimam pela inexistência de uma Ordem de professores aguardando que ela surja por geração espontânea, não dando um passo, sequer, para persuadir os colegas sobre as vantagens deste movimento.

Os fedorentos diriam que falam, falam, mas não os vemos a fazer nada…
Nem é preciso, digo eu, alguém abrirá o caminho por eles!

O que sobra em «diagnósticos» falha em «acções»…

O debate, que mobiliza os professores na blogosfera e nas escolas, não contribuiu para construir uma inteligência colectiva [creio que esta expressão é do professor António Nóvoa] que dê resposta ao imobilismo e à resignação da classe docente face aos ataques à escola pública, engendrados por este governo e seus acólitos na comunicação social. Sobejam teses acerca do destino da escola e da profissão docente, assinalam-se as incongruências nos discursos e nos argumentos usados para justificar o absurdo, fabricam-se textos cristalinos que identificam as peças do enigma que, qualquer leigo, incluindo aquele leitor cujo cérebro funciona apenas com um neurónio, pode perceber sem dificuldade e até opinar acerca do estado da educação. Não chega! É insuficiente!
A resposta ao imobilismo e à resignação tem de ser dada através da ACÇÃO. Construir uma inteligência colectiva passa pelo reforço da colegialidade e os professores não devem recear “fazer política”. A construção da inteligência colectiva tem de ser edificada em responsabilidades assumidas na escola situada.