Profilaxia.

Crónica

O Estatuto da Carreira Docente foi, durante o último ano lectivo, o tema aglutinador do debate sobre as políticas educativas no país. Há duas ideias perniciosas que impregnam o documento e que suscitaram, durante o período de discussão pública, fortes resistências dos professores pelos seus efeitos na degradação das condições de trabalho e, por via disso, na perda de qualidade da escola pública: a reconfiguração da função docente (tendencialmente proletarizada) e, de modo correlativo, a hegemonia de uma lógica taylorista na organização escolar. A intensificação do trabalho docente é o resultado mais visível da aplicação destas duas ideias. E basta entrar na escola situada para reconhecer sinais, indícios, de desgaste prematuro, físico e psicológico, atípico para a época do ano, sinais esses que podem degenerar no abandono do ensino, em problemas de esgotamento, no cinismo e outras reacções negativas. É neste quadro que evoco Hargreaves(1) (1988) para sugerir algumas soluções para lidar com os sentimentos de culpa que decorrem do acréscimo de trabalho:
” 1. Baixar as exigências de prestação de contas e de intensificação do ensino. (…) Deter a burocracia, reduzindo a ênfase que é colocada sobre os resultados dos testes e outras formas impressas de prestação de contas.
2. Reduzir a dependência em relação ao cuidado pessoal e ao tratamento dos outros, enquanto motivo primordial subjacente ao ensino elementar, em particular, ampliando a definição de cuidado, de modo a que este abarque não só uma dimensão pessoal, mas também uma dimensão moral e social, e equilibrando os propósitos educativos de importância equivalente.
3. Aliviar a incerteza e a natureza aberta do ensino, criando, ao nível do estabelecimento de ensino, comunidades de colegas que trabalham em colaboração, estabelecendo os seus próprios limites de exigência profissional e permanecendo ao mesmo tempo empenhadas num aperfeiçoamento contínuo. Tais comunidades também podem aproximar a vida profissional e pessoal dos professores, de um modo que apoia o seu crescimento e permite que os seus problemas sejam discutidos, sem receio de reprovação ou de punição.”
Agir na profilaxia é uma medida sensata para o docente que procura identificar os constrangimentos que asfixiam a acção educativa.

(1) Hargreaves, A. (1998). Os professores em tempos de mudança – O trabalho e a cultura dos professores na idade pós-moderna. Editora McGraw-Hill. Amadora.

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