Arquivos diários: 18/02/2007

Desemprego bom?

Martim Avillez Figueiredo escreve no seu Diário Económico que os números do desemprego são uma boa notícia para o país. Diz o editorialista que “Desejavelmente, Portugal gostaria mesmo de gerar mão-de-obra tecnológica barata. Engenheiros, técnicos de informática, especialistas laboratoriais ou génios da logística, mas todos a preços de saldo para convencer esses gigantes mundiais a colocar boa parte das suas áreas de negócio aqui em Portugal. Ora, uma transição como esta não se faz sem custos.

1ª nota: Depois de ler estas coisas, fico com a sensação de que a fonte onde o ministro da economia vai beber a desfaçatez é a mesma que abastece a imprensa da especialidade. É pena que esta gente não use a mesma linha de pensamento na sua coutada. Ora vejamos. Se me guiasse pela bíblia neoliberal diria disparates deste tipo: atendendo aos lamentos de que se vende cada vez menos; que a quebra de vendas que aflige a imprensa escrita não se deve, apenas, à [má]qualidade dos jornais e dos jornalistas mas também ao preço dos diários e semanários; que urge mobilizar os leitores para a imprensa. A minha linearidade “economicista” levar-me-ia a afirmar que pagando a preços de saldo os ordenados dos directores e seus acólitos, alargando a contenção de despesas a toda a classe de jornalistas, seria possível colocar os jornais a um preço meramente simbólico e, assim, atrair para a leitura os leitores que engrossam as listas de desempregados.

2ª nota: Há algo que me escapa, caro Martim. Depois do engodo, depois de atrair os gigantes mundiais com a mão-de-obra tecnológica qualificada barata, as políticas de exploração dos trabalhadores seriam para manter eternamente ou seriam invertidas de modo a repor os salários justos? Admitindo que a primeira hipótese é escabrosa e que nada disto lhe passa pela cabeça, o que levará os gigantes mundiais a permanecerem por cá, não deslocalizando as suas áreas de negócio para outros países “terceiro-mundistas” “mais atractivos”, depois da recuperação salarial?

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Profilaxia.

Crónica

O Estatuto da Carreira Docente foi, durante o último ano lectivo, o tema aglutinador do debate sobre as políticas educativas no país. Há duas ideias perniciosas que impregnam o documento e que suscitaram, durante o período de discussão pública, fortes resistências dos professores pelos seus efeitos na degradação das condições de trabalho e, por via disso, na perda de qualidade da escola pública: a reconfiguração da função docente (tendencialmente proletarizada) e, de modo correlativo, a hegemonia de uma lógica taylorista na organização escolar. A intensificação do trabalho docente é o resultado mais visível da aplicação destas duas ideias. E basta entrar na escola situada para reconhecer sinais, indícios, de desgaste prematuro, físico e psicológico, atípico para a época do ano, sinais esses que podem degenerar no abandono do ensino, em problemas de esgotamento, no cinismo e outras reacções negativas. É neste quadro que evoco Hargreaves(1) (1988) para sugerir algumas soluções para lidar com os sentimentos de culpa que decorrem do acréscimo de trabalho:
” 1. Baixar as exigências de prestação de contas e de intensificação do ensino. (…) Deter a burocracia, reduzindo a ênfase que é colocada sobre os resultados dos testes e outras formas impressas de prestação de contas.
2. Reduzir a dependência em relação ao cuidado pessoal e ao tratamento dos outros, enquanto motivo primordial subjacente ao ensino elementar, em particular, ampliando a definição de cuidado, de modo a que este abarque não só uma dimensão pessoal, mas também uma dimensão moral e social, e equilibrando os propósitos educativos de importância equivalente.
3. Aliviar a incerteza e a natureza aberta do ensino, criando, ao nível do estabelecimento de ensino, comunidades de colegas que trabalham em colaboração, estabelecendo os seus próprios limites de exigência profissional e permanecendo ao mesmo tempo empenhadas num aperfeiçoamento contínuo. Tais comunidades também podem aproximar a vida profissional e pessoal dos professores, de um modo que apoia o seu crescimento e permite que os seus problemas sejam discutidos, sem receio de reprovação ou de punição.”
Agir na profilaxia é uma medida sensata para o docente que procura identificar os constrangimentos que asfixiam a acção educativa.

(1) Hargreaves, A. (1998). Os professores em tempos de mudança – O trabalho e a cultura dos professores na idade pós-moderna. Editora McGraw-Hill. Amadora.