Ronda pela impensa

Fiquem atentos ao blogue do Rui Tavares – Vale a pena ler o texto que ele deixou hoje no Público

[Enquanto o texto não é importado para o seu blogue, aqui fica um excerto]

“A grelha queimada
Rui Tavares

“geração rasca” está mais velha e o mesmo jornal que celebrizou o termo – este mesmo onde escrevo – trazia há dias uma notícia curiosa. Segundo o PÚBLICO, o número de artigos assinados por portugueses nas revistas-padrão do mundo científico, a Nature e a Science, ultrapassou as quatro dezenas no último ano, ou seja, a Nature e a Science publicaram mais artigos de portugueses no último ano do que em toda a história de ambas as revistas. Os números não estão pormenorizados por idade dos cientistas, mas como a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se trata de investigadores “júnior”, ou seja, em torno dos 30 anos. Aposto que, se fôssemos a olhar mais de perto, descobriríamos que grande parte destes cientistas fez os seus estudos durante os anos 80 e 90, precisamente aqueles que a opinião dominante considera terem sido de “terra queimada” na educação. Estão de parabéns os autores dos artigos e muito em particular um cientista que, tanto quanto me lembro, nunca acreditou na tese da “geração rasca”, José Mariano Gago.
Por que não foi esta notícia mais comentada pelos colunistas que costumam escrevem sobre educação básica, ensino superior e investigação? A resposta pode estar naquilo a que a ciência cognitiva chama de “enquadramento” (framing), mas que é já de há muito conhecido sob outras versões, como a de “grelha de leitura”. Ora acontece que, quando temos uma grelha de leitura muito vincada sobre um tema, ela tende a anular os factos que a contradizem, mesmo que eles estejam debaixo do nosso nariz. É isso que se passa com o debate sobre a educação em Portugal, de tal forma dominado ideologicamente que não há facto contraditório que sobreviva ao rolo compressor da “terra queimada”. Talvez por isso uma notícia destas não mereça comentário: se a geração rasca é assim tão rasca, como é que publicam nas revistas de referência internacionais como nenhuma geração de portugueses antes dela o fez? […]”

ECD… o Contra

No início da tarde, participei num programa de uma rádio local que versava o tema da revisão do ECD. Fui acompanhado por dois colegas, uma dirigente sindical e o presidente do conselho executivo da minha escola, que participou no debate na sua qualidade de professor e não como representante da tutela.
Se há tempos atrás criticava o facto de ter assistido a um debate televisivo que ficará conhecido como o programa do Prós, hoje terei de admitir, o programa em que tive a oportunidade de participar foi um programa do Contra. Se tivesse o auditório da RTP1, o tempo de antena que lhe foi destinado, e pudesse recuperar a oportunidade do momento em que o Prós foi para o ar, diria que uma mão lavou a outra. Mas não foi isto que aconteceu. E não imagino quantos programas teriam de ser realizados para reparar os efeitos perversos que o Prós gerou… mais vale tarde….

Nota: Têm sido inúmeras as ocasiões em que divirjo das opiniões do presidente do conselho executivo da minha escola: Pelos papéis que desempenhamos, pelas visões de escola porventura distintas, pelas crenças que nos influenciam, pelos lugares de onde nos situamos para lançar um olhar para o mundo. Será justo dizê-lo, hoje demonstrou uma grande coragem em assumir publicamente as suas opiniões pessoais, tanto mais que sabia à priori, que elas se afastariam das posições oficiais. Um bem-haja!