O(A) senhor(a) que se segue…

Há qualquer coisa que não está a funcionar bem no Ministério da Educação. Existe uma determinação em abstracto do que se deve fazer, mas uma compreensão muito escassa da realidade concreta.
[…]
O problema reside em considerar os professores como meros funcionários públicos e colocá-los na escola em sumária situação de bombeiros prontos para ocorrer à sineta de alarme. Mas a multiplicação de reuniões sobre tudo e mais alguma coisa não permite que o professor prossiga na sua formação científica. Quando poderá ler, quando poderá trabalhar, quando poderá actualizar-se? Não é certamente nas escolas que existem condições para isso.
[…]
A escola transforma-se num espaço de batalha campal, com o apoio da demagogia dos paizinhos, que acham sempre que os seus filhos são angelicais cabeças louras. E com a cumplicidade dos pedagogos do ministério. Quando precisaríamos como de pão para a boca de um ensino sólido, estamos a criar uma escola tonta e insensata
”. [Público – serviço reservado a assinantes.]

As palavras de Eduardo Prado Coelho (EPC) têm sido insistentemente repetidas por professores em diversos fóruns de discussão, a ponto de eu próprio ter suspeitado que já estavam gastas, alertando para os problemas que derivam da reconceptualização do tempo e função docentes.
Foi com estranheza que observei um elevado consenso entre analistas e fazedores de opinião em torno da catadupa de medidas anunciadas pelo ME. E a minha estranheza não decorre tanto do sentido das opiniões mas, bem pelo contrário, pela unilateralidade dessas opiniões. Não defendo nenhuma teoria da conspiração, mas não considero comum, numa democracia plena, que um tema tão susceptível à divergência de pontos de vista, como é o caso da questão educativa, fosse agregado a uma voz, por sinal a voz do ME. Foi um verdadeiro coro de personalidades oriundas de diversos quadrantes políticos, sociais e culturais, que se congratularam pela coragem do governo revelada no confronto com a corporação docente. Passou muito bem a ideia de que se travava de um combate contra o corporativismo e que passou a ter um rosto – o movimento sindical. Após a persuasão de um sector da “inteligência”, do qual faz parte EPC, num ápice, a opinião pública adoptou o discurso oficial.

O problema que se coloca, a meu ver tardiamente, é que o fluxo hostil sobre a imagem dos professores não só retarda o sucesso de qualquer reforma, como degrada a qualidade da oferta educativa. EPC parece, finalmente, ter percebido esta simples evidência.
Estou muito expectante para ver quem é o(a) senhor(a) que se segue.