A culpa revisitada.


Acabei o ano de 2003 preocupado com o problema da culpa. Considerava que o sentimento de culpa em doses elevadas podia instigar os professores ao cinismo, ao esgotamento e em última instância ao abandono do ensino. Pensava que seria mais fácil lidar com as armadilhas da culpa se, na escola situada, os professores adoptassem um conjunto de soluções terapêuticas, designadamente, baixando as exigências da prestação de contas e da intensificação do ensino; reduzindo a dependência em relação ao cuidado pessoal e ao tratamento dos outros; criando, ao nível do estabelecimento de ensino, comunidades de colegas que trabalham em colaboração, estabelecendo os seus próprios limites de exigência profissional e permanecendo ao mesmo tempo empenhadas num aperfeiçoamento contínuo. Ao enfatizar as causas exógenas do sentimento de culpa terei depreciado os problemas derivados de uma cultura docente individualista que balcaniza as relações profissionais. O défice de discussão intra-muros e a ausência de colaboração acabaram por encostar decididamente os docentes a uma parede de lamentações e não se vislumbra qualquer tipo de reacção.
O sentimento de culpa que tomou de assalto a classe docente tem vindo a agravar-se nos últimos anos. E o que se dispensa neste momento é a vitimação e o fado do coitadinho. Há que aproveitar o virar do ano para virar uma página da nossa postura profissional. São os meus votos para o próximo 2006.