A qualidade do professor

A promoção da qualidade educativa é muito complexa e a análise da qualidade do professor não deve ser feita à margem do que é uma educação de qualidade, um sistema educativo de qualidade, uma família de qualidade, uma política educativa de qualidade, uma sociedade de qualidade.
Por muito que se deseje simplificar e abreviar o processo de promoção da qualidade do professor não tenhamos ilusões: ele terá de participar nesse processo. Ele terá de valorizar esse processo. E aqui a questão da vocação é relevante na medida em que facilita o percurso formacional e dá coerência ao discurso do investimento na qualidade da educação. Um professor que sente uma vontade intrínseca da qualidade [cf. entrada anterior] deseja a dignificação do seu estatuto social e profissional. E essa dignificação passará pela avaliação da qualidade do seu trabalho.
Mas, que professor é este que queremos edificar?
A prospectiva do conteúdo funcional do professor para os diversos níveis de ensino marca a formação inicial do professor. As instituições de ensino superior são responsáveis pela formação inicial e convém, digo eu, que entre vários cenários possíveis antecipem os grandes desafios que esse professor terá de enfrentar no final da etapa. O estágio é fundamental para integrar as componentes de formação (científica, pedagógica teórica e prática, pessoal) e o modelo de estágio favorável à formação do professor que vier a ser definido não deve descuidar de nenhuma destas componentes.
Nem tudo é possível prever e não é desejável que o professor actue de cartilha na mão. Exige-se autonomia e um perfil cívico e intelectual que lhe permita enfrentar os desafios da imponderabilidade. A dignidade da função docente exige que o professor seja uma agente intelectual.

É evidente que as componentes da formação do professor não resistem aos efeitos do tempo. Uma formação contínua adequada deve ajustar as componentes de formação à circunstância e ao “microcosmos” do acto educativo. Uma vez mais retomamos o modelo ascensional. Advogamos um modelo de formação contínua situada que aproxime as instituições de formação de professores e as escolas. Os ganhos serão recíprocos.

Adenda:
O Luís questiona se eu sou contra ou a favor que os bons professores sejam recompensados em relação aos maus.
Neste jogo, o meu lado da barricada é o lado da qualidade. Nem sempre é possível encontrar deste lado os mesmos actores. Há momentos em que deste lado da barricada não encontro o ME, as famílias, e alunos. Há momentos em que eu próprio me dou conta que saltei para o outro lado. Ora, como é óbvio não exigirei a extinção daqueles que circunstancialmente saltaram a trincheira. Mas, em tese, não terei dificuldades em admitir que quem recuse a possibilidade de regressar para este lado lhe seja permitida a saída do jogo.

Enquadrando a questão da qualidade.

Da conversa mantida com o Luís no Memória Flutuante emergem as seguintes considerações:

  • A qualidade não tem sido um imperativo ético.
  • Os actores educativos não sentem uma vontade intrínseca de qualidade.

A reinvenção do sistema educativo não é obra da superestrutura da sociedade. Não é nada que nos caia por decreto. Não é nada que, por magia ou milagre, se inscreva na agenda política das maiorias. Pelo contrário, vejo-a como um movimento que se harmoniza com a concepção de globalização que defendo. Não é um movimento de cima para baixo, nem de fora para dentro. Um movimento assim é o que caracteriza a actual globalização hegemónica. De cima para baixo e de fora para dentro: esmaga-nos. Defendo o movimento contrário. Um movimento de baixo para cima e de dentro para fora.
Este excerto de um texto do João Paulo Serralheiro [merece ser lido devagar] vem a atalho de foice porque encerra uma visão da qualidade assente na ideologia: “ […] De cada um segundo as suas capacidades e a cada um segundo as suas necessidades. Dou o que tenho e, em compensação, recebo o que preciso. Se tenho mais capacidade é natural que dê mais. Se tenho menos capacidade é natural que dê menos e receba mais”. A linha desta utopia é importante porque acolhe e promove a diversidade de talentos dentro da sala de aula e nos locais de trabalho. Impulsiona para um nível mais elevado o que cada um é capaz de fazer. As pessoas são todas iguais quanto aos direitos políticos e sociais e têm direito a oportunidades iguais. Contudo, nem toda a gente utiliza o seu potencial intelectual do mesmo modo. Nem toda a gente tira convenientemente proveitos iguais dessas oportunidades iguais e não obtêm as recompensas iguais pelas suas realizações.

Dito isto, como é que retomamos o sentido ético da qualidade? E como é que se exorta nos actores educativos uma alteração das suas capacidades volitivas?

As teorias que se inserem na perspectiva cognitivista, consideram que o comportamento é orientado para objectivos, sendo o comportamento escolhido, assim como o esforço e a persistência, desenvolvidos em função do valor desses objectivos e da expectativa de que esse comportamento poderá alcançar. Nesta perspectiva são previsíveis elevados níveis de motivação quando a pessoa tem elevadas expectativas de que o seu esforço numa dada tarefa permita a sua realização e que esta leva a obtenção de resultados que, para si, são valorizados.

Uma vez mais se reforça a necessidade de iniciar o movimento de baixo para cima e de dentro para fora.

[Voltarei ao assunto.]