E agora?

Há ano e meio que procuro, neste espaço, elevar a discussão acerca dos problemas da escola a um patamar que nos permita ver não só o umbigo como, e fundamentalmente, o que se encontra para além dele. Não foram raras as vezes em que condenámos perversidades, criticámos disfuncionalidades e apontámos caminhos que nos pareciam alternativos. Não se trata de dizer, “estão a ver, nós avisámos!”. Trata-se de sublinhar um trajecto que procurou o erro, singular e colectivo, e mais do que isso, procurou determinar as causas do erro.
Se recuperarmos o espírito e o sentido das discussões, podemos dizer que nada do que estamos a viver se torna surpreendente. A literatura dedicada às coisas da escola, particularmente, a literatura que relata os efeitos das políticas neo-liberais na educação, antecipa o ambiente efervescente em que vivemos.
O que fazer e como fazer?
Será tardia a reacção mas ainda vamos a tempo de encontrar, responsavelmente, não na praça púbica mas nas escolas situadas, respostas para esta questão.
Reafirmo que o verniz que estala nas relações profissionais pode ser o ponto de partida. Pode ser!

Nos cornos do bicho.

1. Não conheço muitas classes profissionais. A única que julgo conhecer bem é a classe docente. E quando afirmo, indeciso, que admito conhecer bem a minha classe profissional, digo, unicamente, que reconheço o seu conteúdo funcional em situação. É a minha circunstância que me permite conhecer. Isso não significa que não me possa pronunciar, opinar, estudar e emitir pareceres sobre todos os assuntos, inclusivamente, de aqueles que desconheço. Caberá ao interlocutor discernir a fiabilidade das posições, aferir a consistência das afirmações, relativizar as opiniões. A prostituição mediática dificulta esta tarefa ao interlocutor. Todos são parceiros de todos na discussão pública numa espécie de orgia opinativa. A opinião vale mais se aparecer travestida, de preferência num órgão de comunicação visual.
2. As vacas sagradas rareiam. Há profissões que ainda vão resistindo à delapidação da sua imagem devido à maior cristalização corporativa, nomeadamente, os médicos e os juízes, enquanto que outras profissões, como a dos professores por exemplo, não resistirão por muito tempo aos efeitos corrosivos da inveja pública.
É importante perceber a conjuntura para não corrermos o risco de aniquilar a nossa profissão. Há que perceber que alguém tem pegar o touro do achincalhamento público e, desta vez, coube-nos em sorte essa tarefa. Há que não temer o bicho e enfrentá-lo com coragem. No final veremos quem é que fica com a orelha.