Exames facilitistas…

Do documento sujeito a consulta pública é referido que “a avaliação sumativa externa é da responsabilidade dos serviços centrais do ME e compreende a realização de exames nacionais no 9º ano de escolaridade, nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática…”

Os defensores desta medida poder-se-ão questionar sobre as razões da opção de duas disciplinas do plano curricular quando, congruentemente, todas as disciplinas mereciam ser contempladas com a medida facilitista. A crença que sustenta a medida [exames] é que através dela a avaliação será mais justa e mais exigente.

O argumento da justiça não é exclusivo dos defensores dos exames. José Pacheco escrevia em Março do corrente ano este texto que considero útil para clarificar o meu posicionamento nesta discussão:

“Se quisermos falar de avaliação em linguagem de gente, poderíamos dizer que a quase exclusiva utilização de um mesmo tipo de instrumento de avaliação tem sido responsável por graves erros. Atenda-se ao exemplo do candidato a medicina que, por uma centésima, não acedeu ao curso desejado.Deixemo-nos de entretenimentos fúteis! Os fervorosos defensores dos inúteis exames saberão em que consiste assegurar a validade ou a fidelidade de um item? Saberão aquilatar da subjectividade da correcção de uma prova de exame? Terão conhecimento das grosseiras fraudes que os exames engendram? Terão passado, alguma vez, pela angústia da espera, foram afectados por uma ansiedade geradora de bloqueios? Os debutantes e amadores das coisas da Educação não leram nos jornais – que literatura especializada não terão lido, a avaliar pelos disparates que vão debitando na comunicação social – notícias de frequentes e abissais alterações de pontuação que decorrem da reapreciação de recursos?Na avaliação que ainda vamos tendo por hegemónica, é bem visível a ancestral prática selectiva. O ensino em massa é coerente com uma avaliação em massa. Os professores lamentam o dispêndio de tempo posto na correcção de exames e alegam que o Ministério os explora como mão-de-obra barata. O Ministério, por sua vez, gasta fortunas em comissões a quem compete elaborar os testes e coordenar o serviço de exames, em viaturas e seguranças que transportam envelopes lacrados como se fossem as jóias da coroa.Se outra razão não houvesse para acabar de vez com exames, uma razão se imporia. Associada à ideia de exame há sempre a probabilidade de utilização de cábulas e “copianços”. Para cada sala de exame que se preze, são escalados professores que, pressupostamente, são o garante de que os examinados não “copiam”. Os “vigilantes” partem, pois, do pressuposto de que todo o aluno é, até prova em contrário, potencialmente desonesto. Haverá princípio mais antipedagógico que este? Os opinion maker do costume saberão distinguir um professor de um polícia de giro (sem ofensa para o polícia, claro!)?Um exame é, normalmente, um teste de papel e lápis que pouco ou mesmo nada avalia. Só quem não conhece outros e mais fiáveis modos de fazer avaliação poderá defender o desperdício. Eu poderei entender que os leigos dêem tratos de polé ao assunto e abordem a problemática na perspectiva do senso comum. Até poderei entender que, à míngua de uma sólida e coerente formação, muitos professores se refugiem na segurança do que melhor conhecem e dominam – qual o instrumento de avaliação que a maioria dos professores aprendeu a dominar (até à exaustão) dos bancos da instrução primária à secretária de docente? Foram fichas, provas, testes, frequências, exames orais e escritos sem conta! Enfim! Facilitismos! Só não consigo entender os responsáveis que insistem na ideia peregrina e facilitista de que os exames poderão constituir-se na panaceia redentora dos males que afectam o sistema educativo.Um exame é um mero instrumento de discriminação, de selecção arbitrária, até mesmo de exclusão escolar e social. Por ironia, na tradição académica, o “bom professor” é, frequentemente, o que consegue mais elevados índices de reprovação. É evidente a ingénua crueldade das vítimas da rigidez e do acriticismo. Os exames constituem-se, não raras vezes, em instrumentos de poder simbólico, álibis de profissionais irresponsáveis, acomodados, alienados, facilitistas.”

Voltarei ao assunto!