Homo Sportivus

Este post de José Gustavo no Paixão da Educação surge como uma resposta a uma sugestão da colega Saltapocinhas do Fábulas. A colega dizia o seguinte: Eu acho que os professores, ao contrário do que acontece hoje em dia, não deviam ganhar todos o mesmo. (…)Um professor de Matemática, ou Português ou Ciências, etc. devia ganhar mais que os professores de EVT ou de Educação Física e afins.”

Depois de ler os argumentos do José Gustavo aconselho vivamente uma visita ao Paixão da Educação. Reconheço-me nessa cosmovisão e subscrevo integralmente a sua resposta. Como tal, irei olhar para esta problemática de forma enviesada. Parafraseando o professor Jorge Olímpio Bento (um homem que dedica muito da sua vida ao estudo do Homo Sportivus), quando me chamam ou querem fazer de mim burro aproveito logo para dar um coice.

Sim, sou um professor de Educação Física. Olímpio Bento diria que me ocupo, pois, da forma humana. Porque o acto desportivo constrói e revela o homem por dentro e por fora. À unilateralidade de outras expressões da cultura corresponde o desporto com a mobilização e empenhamento total da pessoa.

E uma vez mais, continuámos a ter de provar que a disciplina de Educação Física é relevante do ponto de vista social e por isso há que reafirmar a imprescindibilidade no sistema educativo.

Recupero um texto que escrevi em Janeiro do corrente ano porque ainda se mantém actual. Dizia que a reorganização curricular do ensino básico e, mais recentemente, a reorganização curricular do ensino secundário tocou em algumas feridas que nunca chegaram a cicatrizar. Não se trata de qualquer fervor corporativo impulsionado por sentimentos de vencedor ou perdedor. Portanto, não estou preocupado se o estatuto dos professores da minha área disciplinar decresce ou melhora. São questões menores que nos fazem atrasar no caminho.

A questão central é que há uma redução da carga horária semanal na disciplina de Educação Física no ensino básico e secundário quando é consensual para os especialistas nesta área disciplinar que a actividade física dos alunos na escola é insuficiente para as suas necessidades. Por outro lado, tocam os sinos a rebate quando os estudos nacionais e internacionais alertam para os problemas cada vez mais preocupantes da obesidade e excesso de peso da população infanto-juvenil enquanto que nós assobiamos e olhamos para o lado, disfarçadamente.

A legitimação escolar da disciplina de Educação Física passa por explicitar a sua incumbência educativa e, como tal, há que recorrer a um conjunto de perspectivas, nomeadamente:

  • Uma fundamentação antropológica que acentue a relevância do domínio motor e corporal para um conceito integral de educação na escola;
  • O significado do desporto na vida social e individual, justificando plenamente a necessidade de preparar as crianças e jovens para intervirem neste sector;
  • Acentuação das potencialidades específicas que o desporto encerra para corresponder às necessidades de formação, educação, desenvolvimento da identidade e autoconceito dos adolescentes.

Decorre a partir destas considerações, que o argumento central a favor da presença da Educação Física e do desporto dentro do conjunto das disciplinas escolares é o facto de ser a única disciplina que visa preferencialmente a corporalidade.

Podem ser enunciados outros argumentos que justificam as vantagens da sua presença ou as desvantagens da sua ausência na escola, nomeadamente:

  • A compensação dos aspectos negativos inerentes às outras disciplinas e à organização escolar;
  • A necessidade de aprender desporto na escola para poder participar fora dela;
  • O desenvolvimento da personalidade e da capacidade de rendimento geral, da saúde e do bem-estar;
  • A aquisição de valores do fair-play, do respeito, da consideração e da tolerância;
  • A formação de um estilo de vida que desempenhe uma função relevante, no âmbito de uma estratégia de prevenção de comportamentos desviantes.

Os argumentos poderão ser estes. Nenhuma escola do futuro pode desprezar a pessoa que é o aluno. E uma escola agride o aluno se não cuidar da sua corporalidade.

Será que esta discussão configura um quadro de balcanização disciplinar?

Esta praga que ainda se mantém entrincheirada nas escolas, continua corroendo o que resta de bom no sistema educativo – as relações humanas?

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