Bolonha aqui tão perto.

Para além do que retiro dos artigos de João Vasconcelos Costa na imprensa e no Professorices, o processo de Bolonha é para mim um grande enigma. As notícias da imprensa enfatizam a redução temporal dos graus académicos reforçando o valor – trabalho. Se o motivo principal da mudança é claro, o mesmo não se poderá dizer dos efeitos que a mudança suscitará na estrutura educativa. Obviamente que esta discussão não se irá circunscrever ao ensino superior. Ela alastrar-se-á por toda a pirâmide do sistema educativo. De cima para baixo. Aliás, é habitual que as reformas ou mudanças do nosso sistema educativo tenham sentido único.

MJMatos na sua profícua pesquisa pela imprensa da actualidade educativa deixa-nos este registo do Diário Económico. É uma entrevista ao coordenador responsável pela apresentação de uma proposta de revisão do sistema de graus, para implementação dos Processo de Bolonha, nos cursos de Economia e Gestão.

Quero destacar da entrevista o seguinte:

Existem duas condições a ponderar na decisão de reduzir a duração do 1º ciclo de formação – licenciatura – para três anos.

A primeira, e talvez a mais importante, é saber se os estudantes portugueses concluem o ensino secundário tão bem preparados como os restantes alunos dos outros países europeus. A resposta a esta pergunta é fundamental para saber se é possível formar diplomados para entrar no mercado de trabalho com apenas três anos, como acontece em outros países. Outra questão consiste em conhecer o grau de articulação entre os ensinos secundário e superior.”

Atente-se a um aspecto de menor importância destapado pela minha curiosidade pelo trabalho jornalístico. A minha simplicidade levar-me-á a pensar que não existe qualquer relação entre o “brilhante” percurso académico do coordenador que é patenteado na notícia com as controvérsias geradas em tornos dos exames nacionais. Talvez fosse necessário rematar a notícia e nada melhor do que o pretenso mérito académico do entrevistado.

O professor que fez o liceu em três anos.

António Romão fez o prodígio de concluir os sete anos do liceu em apenas três. Conseguiu fazer os exames do 2º, 5º e 7º anos, como aluno externo do liceu, em apenas três anos. Começou a trabalhar aos 16, mas uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) permitiu-lhe voltar a estudar. «Se não fosse a Gulbenkian, talvez não tivesse estudado», confessa
.”

Os professores do ensino básico e secundário têm sido fustigados com mudanças iníquas no sistema educativo. Receio que o antídoto para lidar com essa entropia passe pela alienação.

Olhar distante.

A propósito de uma discussão inacabada com o Manuel sobre a emergência de uma nova escola lanço este breve olhar, ou um desafio se o entenderem como tal.

As discussões sobre a Escola realizadas intra-muros não fazem parte da agenda dos professores. Admito que esta generalização é abusiva porque decorre da minha experiência profissional, dos encontros justificados pela coisa educativa, do pulsar manifestado na blogosfera. Não me interessa, nesta ocasião, procurar as causas do afastamento docente apoiando-me em estudos ou publicações.

A pergunta que eu coloco é a seguinte:

Será que o professor está votado à sua condição de operário acrítico e arredado da possibilidade de ser ele próprio a decidir o sentido do seu destino?