Entregar a ficha de auto-avaliação (FAA), eis a questão.

14/06/2009 at 11:12 PM | In Avaliação do desempenho docente, Pensar hereticamente, Provocação, Resistência, Sindicatos | 12 Comments

Um conjunto de colegas, devidamente identificados e acreditados na luta dos professores, decidiram manifestar publicamente a indisponibilidade para entregar a ficha de auto-avaliação nos moldes determinados pela tutela. Fazem-no em nome da sua consciência e salientam “que esta declaração não é um apelo a qualquer tomada de posição semelhante por ninguém, mas tão-só a afirmação da nossa.”

A Fenprof, respeitando as opiniões dos professores, designadamente materializadas em mais de um milhar de reuniões realizadas durante a semana de Consulta Geral, apela a que, com a entrega da sua ficha de auto-avaliação, reafirmem o seu desacordo com este modelo de avaliação através da ENTREGA DE UM PROTESTO, COLECTIVO E/OU INDIVIDUAL.”

Ao contrário do que possa parecer, as duas posições são complementares. Dir-me-ão que se trata de um paradoxo mas eu estou convencido de que não é, já que esta complementaridade decorre da responsabilidade de cada um dos grupos face à não despicienda representatividade, ou falta dela. Isto é, o grupo dos ousados colegas fazem-se representar a si próprios, não assumindo para si o ónus de eventuais perdas colectivas; enquanto a FENPROF representa um colectivo de professores, assumiu o compromisso de os apoiar e subsidiar nas acções individuais por si aconselhadas, e é responsabilizada politicamente pelos resultados que advierem dessas tomadas de posição.
Apesar de não terem feito qualquer apelo explícito à não entrega da FAA, os colegas subscritores da declaração acabam por fazê-lo veladamente, porque se assim não fosse, a acção pública não faria qualquer sentido já que bastaria agir com discrição na escola situada. Ao tornar pública uma posição que é individual, espera-se muito mais do que a merecida anuência de alguns colegas; espera-se uma adesão efectiva dos colegas. E não vem nenhum mal ao mundo por isso!

A FENPROF, pelo seu lado, assume uma posição de luta mais moderada, porventura menos ofensiva mas muito mais representativa da vontade dos professores. Se a FENPROF foi injustamente acusada de ter decidido contra a vontade da maioria dos professores no caso da entrega dos objectivos individuais, apesar do número exorbitante de assinaturas que a desafiavam a agir como agiu, agora não deveria ser acusada por não se deixar enclausurar numa acção de luta que seria levada a cabo por uma minoria de professores.

Quando afirmo que as duas posições são complementares, quero dizer que ambas visam o mesmo objectivo embora adoptando diferentes metodologias. Utilizando uma desapropriada linguagem bélica para retratar o combate político, direi que uma aposta numa luta de guerrilha, mais corpo-a-corpo, enquanto outra procura o desgaste do adversário face ao número de efectivos envolvidos.

Se todos são os meios são poucos para lutarmos contra o adversário político comum, é perfeitamente escusada a luta entre pares dentro da barricada. E quem não entender que este não é o tempo para dar tiros nos pés (ou nos colegas de luta), permitam-me o atrevimento: calem-se!

12 Comentários »

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  1. Brilhante Miguel :)

    E a final é hoje :) Ver se aguento.

    Abraço.

    • Espero que a minha equipa adoptiva resolva rapidamente o problema, Paulo ;)

  2. Ofensiva?
    Ofensivo é sugerir que devemos abandonar o ensino.

    • É impressão minha ou estás muito susceptível, Paulo? 8) Qual é a parte do texto que discordas?

    • A FENPROF, pelo seu lado, assume uma posição de luta mais moderada, porventura menos ofensiva mas muito mais representativa da vontade dos professores.

    • :lol: ok… para a gente da minha área disciplinar (EF) o uso da expressão ofensivo traduz uma forma de estar no jogo. Um indivíduo ou conjunto pode ser mais ou menos atacante, mais ou menos defensivo… é uma expressão que nada tem de pejorativo, Paulo. Face à posição assumida por ti e pelos teus colegas do manifesto, o apelo da FENPROF será mais defensivo. Ou não?

  3. Acabadinha de chegar da Beira Interior, vim até ao teu canto em busca de novidades. Levei o portátil mas não me apeteceu tirá-lo da mala…
    E a novidade aqui estava, não fiquei a perder a visita.
    Desta vez Miguel, não concordo contigo. Sou umbocadinho mais “mau feitio” e parece-me que a atitude de não entrega, assim como a relatas aqui, não tem nada de responsável e não tem nada de complementar em relação à posição da FENPROF e dos seus sindicatos.
    Abraço!

  4. Tenho ideia que quando o Miguel faz a analogia com os que abandonaram o ensino estava a referir-se aos colegas que se reformaram com penalização por discordarem entre outras coisas deste modelo de avaliação. Conheço alguns.

    Não foi assim Miguel?

    Abraço.

    • Vamos lá aclarar, Paulo. A coerência é sempre relativa a um determinado contexto. Como dizes, e bem, há colegas que se reformaram com penalização por discordarem entre outras coisas deste modelo de avaliação. Há outros colegas que preferiram mudar de vida porque não suportaram ser maltratados. Uns e outros foram coerentes face às suas circunstâncias e mudaram de vida. Isto significa que para se ser coerente é necessário mudar de vida? Não! Significa que podemos ser coerentes seleccionando meios diferentes na luta contra as iniquidades do sistema. Creio que é possível e desejável que as formas de luta procurem outras lógicas. Abraço :)

      PS (salvo-seja): deixa-me lá regressar ao sofá ;)

  5. Seja qual for a minha decisão tomada em consciência e coerência, estou em absoluto de acordo com o calem-se.

  6. Acho que houve aqui precipitação na interpretação da palavra “ofensiva”, não? Acontece a todos…


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